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Por que a filosofia é um item tão essencial quanto o álcool em gel

Livro traduz pensamento de filósofos de variadas épocas para uma linguagem acessível ao público leigo

 

Paulo Nogueira, O Estado de S.Paulo

 

Nesta época tóxica e lúgubre, a filosofia não deveria ser um item quase tão essencial quanto máscara ou álcool em gel?

Como disse Montaigne, “filosofar é aprender a morrer”. Mas, sem morbidez, para o sábio francês a filosofia era sobretudo um manual para uma vida digna de ser vivida. Correta e honrada, sim, mas também plenamente humana, gratificante e frutífera. Aí os preceitos filosóficos seriam uma espécie de cloroquina do espírito – só que sem a picaretagem de panaceias duvidosas. Assim, é preciso que a filosofia não se enclausure em cidadelas conceituais de bizantinos sistemas abstratos, por mais bacanas que estes sejam.

Como nota Scott Samuelson: “Diógenes costumava mendigar dinheiro a estátuas. Quando lhe perguntavam por quê, respondia: “Para me acostumar a receber recusas.” Mas ele não tinha uma esposa grávida. E nem minha mulher nem eu queríamos morar num barril e nos aliviar do lado de fora, como Diógenes fazia. Ele comete o erro comum de tomar uma parte da filosofia – o escrutínio intelectual de várias posições – pelo seu todo, que envolve o mais pleno exercício de nossa racionalidade: a procura de uma vida significativa. A filosofia começa e termina no reino dos encanadores, do amor, das dores nas costas, das ressacas, da beleza e das unhas dos pés pintadas.”

 

 

A Filosofia na Vida Cotidiana não se arvora em história do pensamento – para isso temos um menu variado, de Bertrand Russell a Alan de Botton, de Daniel Boorstin a Luc Ferry – e Leszek Kolakowski. Os capítulos são temáticos, com questões como “O que é a felicidade?, ou “Qual a natureza do bem e do mal?” Samuelson – como seu ídolo, Sócrates – circula pela ágora, e não pelas academias, onde, de acordo com Kabir, o poeta indiano do século XV, “eles desperdiçam seu nascimento em ismos.” Na Grécia e na Roma Antiga, os cidadãos consumiam filosofia para recauchutar suas existências – não seus currículos. Sim, filosofia era autoajuda, e com muita honra. Vai encarar?

Sócrates (cuja Atenas foi flagelada por uma peste, descrita por Tucídides) ficou estarrecido com a lisonja do Oráculo de Delfos, de que ele era o homem mais sábio da Grécia. Para refutar o rótulo, Sócrates saracoteou pela cidade, interpelando todo mundo – e todo mundo se achava. Afinal, o oráculo tinha razão: ele era mais sábio porque sabia que nada sabia (ah, se certos capitães soubessem disso…).

Samuelson realça a correspondência entre palavras e atos: “A felicidade de Sócrates está à vontade em meio a qualquer tipo de pessoa – fanático, criança, escravo, poeta, bêbado, prostituta, general, até outro filósofo.” Sócrates tira de letra a morte fungando em seu cangote: “Vocês não me sentenciaram à morte; a própria vida o fez. Tudo que vocês fizeram foi me dar uma data.”

Já Epicuro cataloga três tipos de desejos: “1) Desejos naturais e necessários, que sustentam nossa saúde e asseguram nossa tranquilidade mental (como nossa fome de alimento e de companhia); 2) Desejos naturais e desnecessários (como nosso desejo de comer caviar sobre um pedestal de foie gras); e 3) desejos antinaturais e desnecessários (como nossos anseios por dinheiro, fama ou poder). O grande problema é que nossos desejos tendem a deslizar da primeira categoria para as outras duas.” Ô, se tendem.

Difamado pelos escolásticos como um devasso, Epicuro era frugal: “Abençoada Natureza, que tornou o necessário fácil de ser alcançado e o que não é fácil, desnecessário.” E talvez seja dele o mais formidável antídoto racional contra o pavor da extinção: “Não temo a morte, pois onde estou, ela não está, e onde ela está, eu não estou.”

É como notou Millôr Fernandes: “Os meios de comunicação de massa foram inventados depois que os gregos já tinham esgotado o assunto.” É bem verdade que, no século 17, um francês adormece numa estufa para fugir do frio e, passando uma semana de pijama, tem três sonhos que engendrarão a filosofia moderna. Num dos sonhos, Descartes concebe a dúvida sistemática e o cogito (penso, logo existo). Depois, para escapar dos obscurantistas, ele se manda para a Suécia, a fim de instruir a rainha Cristina. Pena que a monarca queria aulas às cinco da matina, na glacial Estocolmo, e ele morre de pneumonia.

Conclusão do autor: “Quando lhe foram negadas suas melhores horas de sonhos, Descartes não durou muito para o mundo. A lição é: não se levante cedo demais porque você vai morrer.” E Deus existe ou não? Ausência de prova não é prova de ausência, como observou o insuspeito Carl Sagan? Ou, como choramingou Woody Allen, “se Deus pelo menos abrisse uma conta numerada em meu nome num banco suíço!” Pascal (gênio enciclopédico, criou o seu teorema, a máquina de calcular – avó do computador -, a seringa, a teoria das probabilidades. E apostou suas fichas no Todo-Poderoso: “Se Deus existe, eu ganho tudo. Se não existe, não perco nada.”

A questão é como descascar o abacaxi do problema do mal – como o sofrimento imerecido. Kant divide a bagaça em duas categorias: o “mal moral”, que inclui o sofrimento injusto que os seres humanos infligem uns aos outros (o estupro é um exemplo), e o “mal natural”, que descreve o infortúnio incrustado na própria estrutura da existência (câncer ou pandemias).

Um dos pensadores menos conhecidos que Samuelson examina é Hans Jonas, judeu alemão que foi aluno de Heidegger e parça da vida inteira de Hannah Arendt. Jonas postula três rupturas: “Primeiro, a transição da matéria inorgânica para formas primitivas de vida. Esse é o salto da própria vida. Embora uma pedra possa ser esmagada ou transformada ou mesmo vaporizada, ela não pode morrer. Assim, com o salto da vida, a morte também entra em cena. Em seguida, a transição da vida vegetativa para a vida animal, na qual a vida começa a sentir-se.

Um animal, tal como uma planta, precisa de alimento, mas ele também experimenta essa necessidade como fome. Com esse salto, a dor e o prazer passam a existir. Por fim, há a transição para a vida humana. Somos animais racionais, capazes de conceituar o mundo e nossa própria existência.” Jonas rejeita o materialismo redutor: “O fato de, por escalas cósmicas, o ser humano não passar de um átomo é uma irrelevância quantitativa: sua amplitude interior pode torná-lo um evento de importância cósmica.” Ou seja, tamanho não é documento: o infinitesimal pode abarcar o infinito.

Enfim: eu já não saio mais de casa sem a minha máscara, álcool em gel e este livrinho. Cuja conclusão é uma vacina universal: “Uma crença é como um motivo musical que organiza uma sinfonia muito mais complicada. Acredito que a sabedoria é compatível com um grande número de tradições, religiosas ou não. Pois a sabedoria não é tanto a posse das crenças certas (embora envolva a recusa das piores delas) quanto o encontro de uma forma de nos relacionarmos com nossas crenças de tal modo que as partes boas de nós sejam liberadas. A sabedoria não é uma doutrina, é um estilo.” De certa forma, ao sobrevivermos poderemos começar a viver.

A FILOSOFIA NA VIDA COTIDIANA

Autor: Scott Samuelson

Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges

Editora: Zahar

272 páginas

R$ 69,90 (e-book R$ 49,90)

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)