Sociedade

Patrão x patroa: no Google, o retrato do machismo

ANITTA NO CLIPE DE TA COM O PAPATO COM PAPATINHO, DFIDELIZ E BIN - REPRODUÇÃO/YOUTUBE

Nesta semana, cantora Anitta reagiu ao significado da palavra ‘patroa’ nas buscas da internet

Carta Capital
“Chegou a patroa, não desço do salto”. Assim canta Anitta na música lançada em agosto em parceria com os rappers Papatinho, Dfideliz e Bin. Com uma letra empoderada, a carioca fala na canção o que pode ser uma biografia resumida de sua vida: poderosa, empresária, milionária e empoderada.

A cantora, no entanto, levou um susto na quarta-feira 9 ao pesquisar no Google o significado da palavra “patroa”. No dicionário, aparecem “mulher do patrão” e “dona de casa” como definições.

 

 

 

Quando se busca o termo “patrão”, o significado é outro: “Proprietário ou chefe de um estabelecimento privado comercial, industrial, agrícola ou de serviços, em relação aos seus subordinados; empregador; chefe de uma repartição pública”.

“É inacreditável. Eu não estou acreditando que isso está no nosso dicionário. Patroa é tudo que está no masculino, só que no feminino. Pode ser a dona do que quiser”, reagiu a artista em uma rede social.

A palavra “patroa” não é a única da língua portuguesa que tem significados contestáveis nos resultados de busca na internet.

Em sua defesa, o Google alega que não é o responsável pelo conteúdo. O sistema da plataforma apenas reproduz o que aparece nos dicionários da Oxford University Press.

“Quando as pessoas pesquisam por definições de palavras na Busca, frequentemente, elas desejam informações de maneira rápida. Por isso, trabalhamos para licenciar conteúdos de dicionários parceiros, neste caso da Oxford Languages. Não temos controle editorial sobre as definições fornecidas por nossos parceiros, mas reconhecemos a preocupação neste caso e vamos transmiti-la aos responsáveis pelo conteúdo”, disse o Google em pronunciamento oficial.

Para a linguista e autora do livro “Gramática da Manipulação”, Letícia Sallorenzo, “é obrigação do dicionário trazer o registros dessas palavras”. “É para isso que o dicionário serve. Goste-se ou não, essas palavras são faladas com esse sentido em alguns lugares do País”, afirma.

“Os significados não podem deixar de ser registrados. É a sociedade que precisa mudar por meio do comportamento. Hoje, por exemplo, a gente se sente mal chamando alguém de tição (maneira como os negros eram tratados). Há 30, 40 anos não era, e já conseguimos tirar essa expressão do uso corriqueiro, mesmo aparecendo no dicionário”, acrescenta.

 

Exemplos

 

Até o final de 2019, quando a palavra professora era buscada no Google, uma das definições era a de “prostituta”. Após gerar polêmica nas redes, o parceiro do Google retirou a definição do ar.

 

 

A palavra “cadela”, quando pesquisada, vem acompanhada de “mulher pouco digna ou de comportamento ou hábitos reprováveis”.

 

 

De acordo com a linguista, a maioria das associações de mulheres com animais tem como objetivo tratá-las de forma pejorativa.

“A retratação da mulher na língua brasileira vai ser sempre de forma depreciativa. Raríssimos casos vão apontar no sentido contrário. Se você fala que homem é um galo, ele é o garanhão, já a mulher galinha é a promíscua”, diz.

Nas buscas, o termo vaca aparece como “mulher de vida devassa”.

 

 

Já vadia tem como significado “pessoa do sexo feminino que tem muitos casos amorosos”.

 

 

Puta é outra palavra que aparece com conotação preconceituosa. “Qualquer mulher lúbrica que se entrega à libertinagem”, define o dicionário.

 

Apesar dos exemplos, Letícia pondera que a língua portuguesa não é machista.

“Não é machista, nem feminista. No fundo, é resultado de seus usuários. Se quem faz o uso dela a utiliza de forma machista, é porque a pessoa é machista”, afirma.

 

Cultura do xingamento

 

A psicóloga, professora da Universidade de Brasília e autora do livro “Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação”, Valeska Zanello, diz que a nossa cultura aceita xingamentos.

“O xingamento é um sintoma da nossa cultura. São preconceitos que se tornam invisíveis pela força do hábito”, diz em entrevista a CartaCapital.

A palavra babaca, por exemplo, tem origem no termo vagina. No dicionário, vulva.

 

“Não existe um significado puro de nenhuma palavra. Estudar essa pragmática da palavra é fundamental, porque é desvendar os valores sexistas e racistas de nossa sociedade”, afirma Valeska.