Sociedade

Estudante da UnB cria “cartilhas” que empoderam população preta e LGBTQIA+

ARQUIVO PESSOAL/REPRODUÇÃO

Morador da Vicente Pires, Jônatas Barros cursa medicina e produz conteúdo sobre a população preta e LGBTQIA+ para as redes sociais

CATARINA LOIOLA

Antes mesmo de se formar no ensino médio, o brasiliense Jônatas Barros, de 21 anos, já sabia o que fazer na carreira profissional. Para ele, a medicina é uma ferramenta capaz de impactar positivamente o mundo e mudar a realidade de pessoas à margem da sociedade. Em 2018, ele realizou o sonho e entrou para o curso promovido pela Universidade de Brasília (UnB).

“Me sensibilizei, principalmente, em como eu poderia ajudar pessoas com o conhecimento. Porém, com o tempo, vi também a oportunidade de revolucionar a sociedade que eu vivo, como um meio de ascensão social e de promover o mesmo para outras pessoas com a representatividade e ajuda direta”, afirma.

Ao longo do curso, ele percebeu a necessidade de criar literatura sobre assuntos escassos no meio acadêmico, por meio de fontes científicas, como livros e artigos, e com o apoio de professores.

“Antes, vivia em uma bolha limitada que não me permitia criticar, mas com a universidade e o contato com diversas populações, pude enxergar e me aprofundar em vários temas. Desde racismo, questões de gênero a interseccionalidades”, pontua.

O brasiliense é presidente da Liga Acadêmica de Infectologia da UnB e já foi Coordenador Geral do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina.

“Meu maior sonho é ser o maior especialista em HIV no Brasil e também criar uma casa de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ em situação de rua, com cursos e oportunidades para aqueles que foram acolhidos. Ser a família deles”, escreveu no primeiro post no Instagram.

A produção de conteúdo para as redes sociais começou em outubro de 2020. No Instagram, onde soma quase 3 mil seguidores, ele compartilha a rotina de estudos e faz publicações frequentes sobre variados tópicos, como saúde e sexualidade da população preta e LGBTQIA+. Recentemente, ele abordou a saúde mental dos negros e a afroconveniência e suas consequências.

“Para o público, é uma pesquisa extensa com critérios científicos bem respaldados, bibliografia e acervos”, diz. “Quando o material fica pronto, recorro aos professores para ter o crivo e a validação legítima acadêmica”.

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Produções

A luta pela criação e compartilhamento de conhecimento é inspirada em personalidades admiradas por Jonatas. Entre elas, a mãe do estudante, colegas de curso e docentes na área. “Até hoje, tive pouquíssimos professores pretos, no máximo quatro, mas todos têm uma enorme representatividade para mim”, afirma.

Apesar do número reduzido, Jônatas acredita que deve haver uma escalada nos próximos anos. “A diversificação na cor de professores é uma tendência crescente e representa o combate ao racismo estrutural e um incentivo ao acesso de pessoas pretas dentro do curso de medicina, que é, por si só, extremamente elitizado”, diz.

“A educação é uma medida de ascensão social muito importante para pessoas que não tem outros meios. Muitos colegas pretos vão utilizar a medicina para ser uma ferramenta de ascensão social no meio em que vivem e que pretendem seguir na academia e no meio docente”, afirma.

Estudos

Quando passou no vestibular, Jonatas se sentiu extasiado, assim como qualquer outro jovem. Se não tivesse dado certo na cidade natal, Jônatas poderia estudar em outras oito faculdades, como a Universidade de São Paulo e a Universidade de Minas Gerais.

@JONATAS_FERREIRA/INSTAGRAM/REPRODUÇÃO
Ele mora com a família em Vicente Pires

Como calouro, ele foi se descobrindo e desenvolvendo ainda mais o próprio intelecto. “À medida que fui solidificando a minha identidade e a minha sexualidade, fui questionando a minha existência e quem eu sou de fato. Acho que todo mundo passa por isso”, afirma.

Jonatas deve se formar no primeiro semestre de 2024. Até lá, ele pretende continuar firme nos estudos e nos projetos de pesquisa. Atualmente, ele está passando um tempo na casa de um amigo de classe para participar de aulas práticas no Hospital da Universidade de Brasília.

ARQUIVO PESSOAL/REPRODUÇÃO
Ele deve se formar em 2024

Embora não atue na linha de frente, ele preferiu preservar a saúde dos pais e não correr o risco de o contaminar com o novo coronavírus. “As aulas práticas são os atendimentos ambulatoriais com os pacientes marcados. Nós os atendemos até acabar a lista e discutimos com os professores os casos”, explica.

Além de se preocupar em atender o próximo, ele sonha em ajudar travestis pretas que vivem marginalizadas. “É o que me motiva e me motivou até agora. A partir do momento que tive mais contato com o tema, essa vontade que já era crescente foi ganhando proporções enormes e se tornou minha prioridade no curso”, diz o jovem, que também quer atuar na sala de aula.

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