Chefe de gabinete pressiona e ação contra transporte pirata é suspensa

 

Em áudio obtido pelo Metrópoles, o chefe de gabinete da Secretaria de Mobilidade do DF cobra o cancelamento de operação de fiscalização em Ceilândia, que seria feita em janeiro

ARY FILGUEIRA

 

As dificuldades em combater o transporte pirata no Distrito Federal não se limitam ao enfrentamento à quadrilha que se aproveita da precariedade do serviço público para faturar alto em cima dos passageiros. A tarefa fica ainda mais complicada quando o próprio Estado age para coibir a fiscalização.

Em um diálogo obtido peloMetrópoles, o chefe de gabinete da Secretaria de Mobilidade (Semob), Moisés do Espírito Santo, reclama com o subsecretário de Fiscalização e Auditoria (Sufisa), Júnior Celso Nicola, de uma grande operação que seria realizada em Ceilândia.

Na conversa, que ocorreu em 20 de janeiro deste ano, Moisés cobra explicações sobre uma “possível” operação em Ceilândia. “Vai haver uma (ação) de combate à pirataria amanhã”, responde o subsecretário.

A resposta parece contrariar o chefe de gabinete. “Pois é, mas nós tivemos uma orientação do secretário (Marcos Dantas) para, nesta semana, a gente não fazer nenhuma ação. Só quando ele voltar. Nós recebemos seu plano de trabalho dos 90 dias. E aí sim ele iria combinar com você as operações”, cobra Moisés.

O subsecretário Júnior Celso Nicola diz que só cancelaria a operação mediante determinação por escrito de Marcos Dantas. “Eu cumpri minha ordem no cronograma, meu dever como auditor fiscal. E agora estou na subsecretaria. Gostaria que o secretário me desse essa ordem verbal ou então por escrito, de preferência, que é para suspender as operações.”

Em tom ameaçador, Moisés insiste que a ação seja cancelada, dizendo que a determinação é do próprio secretário. “Veja bem. Não foi o Moisés que falou para você. Eu falei em nome do secretário. Você está descumprindo a ordem dele, é isso? Tá bom. Tudo bem. Você vai fazer a operação amanhã, não vai? Você está descumprindo a ordem do secretário”, frisa. Após o desgaste, a operação foi suspensa.

Ouça o diálogo:

 

 

Explicações
Na quarta-feira (13/4), o chefe de gabinete de Marcos Dantas, Moisés do Espírito Santo, explicou o episódio à reportagem e disse a ação dos fiscais foi cancelada porque “não apresentava efetividade”.

Pedimos ao secretário que fizesse um levantamento sobre os locais de incidência da pirataria e um plano de combate. Até que esse plano fosse apresentado, a gente deveria suspender as operações, porque elas não estavam tendo a efetividade que o secretário gostaria de ver.”

Moisés do Espírito Santo, chefe de gabinete da Secretaria de Mobilidade

Moisés confirma o diálogo com o subsecretário Júnior Celso Nicola. “Nós tínhamos suspendido essas operações, até que o plano fosse concluído”, emenda.

Ainda segundo Moisés, as ações de combate ao transporte pirata deveriam ser feitas em conjunto com o Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), a Secretaria da Segurança Pública e as polícias Civil e Militar.

Piratas do asfalto
Na semana passada, o Metrópoles mostrou em uma série de três reportagens especiais, após quatro meses de apuração, que o transporte pirata no DF se tornou uma organização criminosa e que tem a participação de servidores públicos e policiais militares. Os números do transporte ilegal de passageiros nas vias da capital do país impressionam. São mais de 10 mil veículos que movimentam R$ 3 milhões por dia.

Servidores contaram que os pirateiros têm acesso às rotas da fiscalização assim que as ordens de serviço começam a circular entre as equipes.

 

 

 

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