As novas famílias do DF. Multiplica-se o número de casais gays prontos para adotar crianças da cidade

A alegria de segurar uma criança nos braços e tê-la para si, com o objetivo de amá-la e educá-la até que cresça e siga seus próprios passos. É esse o sonho dos 476 casais que, de acordo com a Vara da Infância e da Juventude, se encontram habilitados para adotar crianças e adolescentes, na capital do país.

Dentro desse universo, um pequeno grupo começou a se destacar. Vencendo medos e preconceitos, 14 pares homoafetivos passaram pelo período de avaliação da Justiça e estão disponíveis para compor uma família. Apesar de parecer pequeno, o número é relevante se considerado que, entre 2006 e 2015, somente 15 crianças foram entregues a casais gays – enquanto houve 2.058 adoções por parte dos héteros.

“A possibilidade de que homossexuais possam ter filhos é ainda uma postura muito inovadora para a sociedade. Mas estão passando a se importar menos com o que dizem e mais com o que sentem”, afirma Soraya Pereira, presidente da ONG aconchego, instituição que promove encontros mensais entre casais que pretendem adotar crianças e aqueles que acabaram de adotar.

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De acordo com a Vara da Infância, o protagonismo por parte dos homossexuais tem consequências positivas na vida de jovens que aguardam ansiosamente por uma família. “São pessoas abertas para receber crianças que fogem ao perfil comum de um adotivo”, diz Walter Gomes, Supervisor da Seção de Colocação em Família Substituta da Vara da Infância e da Juventude do DF.

De fato, todos os casais homossexuais habilitados pelo órgão mostraram-se abertos para receber crianças com mais de 2 anos de idade, negras, que possuem irmãos e com alguma doença congênita.

Em geral, buscava-se crianças brancas e recém-nascidas. Os pares homoafetivos estão mudando isso

Walter Gomes

História de amor e muita luta
O empresário Robson Lemos, 50 anos, mais conhecido como Robinho, sempre sonhou em ser pai. Depois de conquistar estabilidade financeira, buscou uma assistente social para auxiliar no processo. Em 2009, veio a oportunidade. Uma jovem, grávida de 7 meses, se dispôs a entregar sua filha logo após do parto. Ele aceitou a chance e tratou de acertar o quanto antes toda a documentação. “Foi um processo difícil. Causava muita insegurança às autoridades entregar uma menina a um homem gay”, conta. Em agosto do mesmo ano, Paula nasceu. Robinho, já com a autorização provisória de guarda da menina, pode pegá-la nos braços.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Por mais quatro meses, Robinho teve que enfrentar o medo de perder a filha.

No dia que fui buscar o CPF com o meu nome e o de meu marido, haviam me questionaram como que poderia haver filho sem mãe? Eu tive que aguentar calado, pois queria muito que ela tivesse esse documento. E, no fim, deu certo. Saí de lá vitorioso

Robson Lemos

Daí em diante, a história de pais e filha vem sendo construída por muita cumplicidade e amor. “Somos uma família marcada pela felicidade. Ter a Paula foi um presente na nossa vida”, afirma o administrador, companheiro de Robinho e também pai da menina, Evandro Souza, 46.

Na trajetória da família, raras situações envolveram algum tipo de preconceito. “Já houve o caso de amiguinhas perguntarem por que ela tem dois pais, mas o preconceito está nos adultos e não nas crianças”, diz o empresário.

Robinho relembra o dia em que Evandro foi à escola para comemorar o Dia das Mães com Paula. “Por lá, não houve nenhum problema, nem com professores, nem com coleguinhas, mas ele ganhou uma pantufa rosa e agora é obrigado pela nossa filha a usá-la todos os dias em casa”, conta, entre risos.

Busca por afeto
Diante da composição de famílias homoafetivas, é comum escutar a pergunta: “Como fica a criança sem uma mãe?” (o contrário vale para casais de lésbicas). A psicóloga Sanmya Salomão tem a resposta.

É uma fantasia achar que a criança precisa de pai e mãe. O que ela precisa é de afeto. De um lar que lhe ofereça segurança

Sanmya Salomão, psicóloga

Para Sanmya, há, sim, uma diferença entre famílias compostas por casais gays e héteros, mas nenhuma diz respeito à formação de um lar. “A grande diferença é que será necessário um diálogo maior com a criança sobre os preconceitos da sociedade. O que é extremamente positivo para a formação dela”, explica.

Sanmya também faz parte da ONG Aconchego. Durante os encontros promovidos pela instituição, que permitem uma troca de experiências sobre esse assunto, ela percebeu que os casais homoafetivos sabem lidar com as dificuldades do preconceito, de maneira geral, e acabam se afastando desses rótulos com mais facilidade.

“Eles têm uma forte identidade de afirmação, o que é muito importante para superar esses problemas, e percebem que o amor por um filho vai muito além de qualquer barreira imposta pela sociedade”

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