Sistema socioeducativo classifica 21 para a segunda etapa da Olimpíada de Matemática

 

Jovens seguem estudando nas próprias unidades de internação para a próxima fase, em 12 de setembro

Ádamo Araujo, da Agência Brasília

Nicolas* tem 18 anos e cumpre medida socioeducativa na Unidade de Internação do Recanto das Emas. No seu tempo de reclusão, aproveita para estudar. O esforço e a dedicação aos livros renderam a ele, junto a outros 20 internos do regime do Distrito Federal, a aprovação na primeira fase da 11ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.

Gabriel*, de 15 anos, também se saiu bem na avaliação. Estudante do ensino fundamental da Fênix, escola que funciona dentro da Unidade de Internação de São Sebastião, o garoto sonha cursar medicina e acredita que participar de uma competição de conhecimento vai lhe abrir portas. “O estudo é o melhor caminho e vai me ajudar muito quando eu sair daqui”, acredita.

Essa não é a primeira vez que o Distrito Federal alcança um resultado do tipo na competição. De acordo com o coordenador local da Olimpíada de Matemática, Reginaldo Ramos de Abreu, de 2005 a 2008, internos do extinto Centro de Atendimento Juvenil Especializado chegaram à fase decisiva.

É uma proposta da organização do evento incluir todos os estudantes da rede pública. Estados como São Paulo e Minas Gerais também garantiram a classificação de adolescentes na mesma situação. Além dos meninos e meninas em cumprimento de medida socioeducativa, jovens com diversos tipos de deficiência têm a oportunidade de participar da disputa.

Segunda fase
O próximo passo agora é tratar com as regionais de ensino e com o sistema de internação a logística para os avaliadores aplicarem a prova da segunda fase, que ocorre em 12 de setembro, dentro da unidade. Na primeira, os próprios professores da Secretaria de Educação que atuam na instituição realizaram o procedimento.

Inseridos no sistema socioeducativo, eles estão sob a responsabilidade da Secretaria de Política para Crianças, Adolescentes e Juventude. Para intensificar a preparação dos estudantes, a secretária Jane Klebia Reis pediu às unidades que criassem grupos de estudos fora dos horários das aulas. “Eles precisam de oportunidades para alcançar os objetivos e faremos todo o possível para criá-las”, garante.

Professor desde 1999, Ubiratan de Araújo, de 45 anos, começou a dar aulas para menores em conflito com a lei no ano passado. No início, ele disse ter sido difícil, pois tinha receio da conduta dos alunos. Mas a realidade foi diferente. “Eles querem aprender, absorver cultura e dar um novo rumo às suas vidas.”

A Secretaria de Política para Crianças, Adolescentes e Juventude inaugura na quarta-feira (26) um espaço de leitura na Unidade de Internação de São Sebastião. Será mais um local para esses e outros internos estudarem. Nos últimos dois meses, as Unidades de Internação do Recanto das Emas, de Planaltina de Saída Sistemática, de Santa Maria e a Provisória de São Sebastião também receberam uma sala com livros de literatura e de ensino.

Entenda a disputa
A cada etapa, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas se afunila. O torneio começou em junho com 17.970.745 estudantes de 47.582 escolas inscritas, em 5.538 cidades brasileiras. De Brasília foram cerca de 250 mil competidores. Nessa fase, as provas tiveram 20 questões objetivas de múltipla escolha e ocorreram nas próprias escolas.

Após o resultado da primeira seleção, restaram 888.822 estudantes — a rede de ensino de Brasília classificou 12.588. Eles farão uma nova avaliação em 12 de setembro em centros regionais. A prova será dissertativa com seis perguntas, nas quais o estudante deverá expor os cálculos e o raciocínio utilizado. Desde o início, os estudantes foram divididos em três níveis: 6º e 7º anos; 8º e 9º anos; e 1º, 2º e 3º anos do ensino médio.

Ao fim da próxima etapa, com resultado previsto em 27 de novembro, cerca de 6,5 mil serão premiados com medalhas (500 de ouro, 1,5 mil de prata e 4,5 mil de bronze), além de cerca de 46,2 mil com menções honrosas.

O Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada convidará os medalhistas para participar do Programa de Iniciação Científica Jr, no próximo ano, com bolsa-auxílio de R$ 100 por mês. Também integram as premiações professores, escolas e secretarias de educação de locais que se destacarem em virtude do desempenho dos alunos.

Homenagens
Nesta segunda-feira (24), às 14 horas, uma solenidade no Centro de Convenções Ulysses Guimarães vai homenagear cerca de 800 alunos da rede pública premiados na edição de 2014 da competição. Na cerimônia, serão entregues troféus às escolas que se destacaram e tablets e diplomas de mérito a professores.

Os brasilienses conquistaram 202 medalhas na competição, das quais 10 foram de ouro, 64 de prata e 128 de bronze. Outros 683 foram agraciados com menções honrosas. Considerando que os estudantes da rede pública de ensino do DF concorreram com mais de 18 milhões de alunos em todo o Brasil, técnicos da Secretaria de Educação avaliam que os números da premiação mostram a eficácia das políticas públicas em vigor na capital.

A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas é promovida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Ministério da Educação, e realizada pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática e das Secretarias de Educação estaduais e do Distrito Federal. O objetivo é incentivar o ensino da disciplina e descobrir talentos entre estudantes das escolas públicas brasileiras.

(*) Os nomes reais dos jovens foram alterados para preservar sua imagem em observância ao artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

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