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Grupos antivacina aumentam conspirações com avanço de pesquisas sobre coronavírus

MONTAGEM COMPARTILHADA NOS GRUPOS ANTIVACINA NO FACEBOOK (FOTO: REPRODUÇÃO)

Falas recentes de Bolsonaro agitaram os grupos, mas teorias são altamente conspiratórias e repetem as inverdades com frequência

Carta Capital

Entre os dias 15 e 21 de março, o Google identificou um pico de pesquisas pelo termo “vacina” como não havia registrado antes na história.

O momento era de incertezas sobre o alcance da Covid-19 no mundo, e a corrida contra o tempo para conhecer melhor o Sars-Cov-2 – o novo coronavírus – e suas implicações como a maior crise sanitária do século. As preocupações, no entanto, também se voltaram a outro tipo de “epidemia”.

No Brasil, foi possível sentir novamente o gosto e o alcance das campanhas de desinformação no dia 31 de agosto, quando o presidente Jair Bolsonaro comentou, em resposta a uma apoiadora, que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”.

A fala foi rapidamente pulverizada nos grupos que reúnem teorias conspiratórias sobre vacinação e o coronavírus, e ressaltou a facilidade com que apoiadores desse tipo de projeto criam especulações sem qualquer senso na realidade científica.

Faz parte do modus operandi do movimento antivacina unir temas sensíveis a religiosos e conservadores, como o aborto e associações ao diabo, com nomes famosos por serem constantemente relacionados a projetos de “controle mundial” – como o criador da Microsoft, Bill Gates, e o filantropo George Soros. Tais aspectos somam-se a supostas maneiras de se obter uma “hegemonia de pensamentos” acríticos, que viriam pela inserção de “microchips” para controlar a mente humana.

 

PUBLICAÇÃO CONSPIRATÓRIA EM GRUPO ANTIVACINA NO FACEBOOK (FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK)

 

Quem explica esse tipo de dinâmica é o analista de comunicação João Henrique Rafael Jr., que trabalha no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (IEA-RP) também como idealizador do grupo União Pró-Vacina, criado no fim de 2019.

Inicialmente motivados pelos dados perigosos que mostravam uma queda, ano a ano, nas metas de vacinação no Brasil – um País de forte tradição e referência no assunto -, integrantes do grupo, que buscam combater desinformação científica e educação sobre como funciona a imunização, se viram diante de novos desafios na pandemia.

A análise feita pela União Pró-Vacina mostra que entre 31 de agosto e 2 de setembro, 14 publicações repercutiram a declaração do presidente. Foram 773 interações, sendo 426 reações, 264 comentários e 83 compartilhamentos.

Um dos compartilhamentos vinha de um site bolsonarista, e o comentário associava a fala do presidente ao direito de ir e vir – uma das táticas discursivas mais populares entre os negacionistas de vacina no mundo todo, explica João Henrique.

“Vamos acreditar que ele não quis fazer um aceno ao movimento antivacina e se expressou de uma maneira que não foi das melhores. Mesmo assim, foi visto não só como um apoio da presidência, mas também como uma possibilidade de aceno ao meio político – tanto é que o coordenador do grupo mais radical já informou que enviou centenas de e-mails para deputados”, relatou João.

 

(FOTO: FACEBOOK/REPRODUÇÃO)

 

Mesmo supondo que Bolsonaro não teve a intenção de se declarar um cético das vacinas, a fala do presidente foi lida como irresponsável. É essa análise que faz Gregório Fonseca, engenheiro e doutorando em comunicação pela Universidade Federal da Minas Gerais (UFMG) que pesquisa a ação dos grupos negacionistas de vacina no YouTube desde 2018.

Ele explica: “Tomar ou não tomar vacina não é uma questão individual, é coletiva. Têm pessoas que não podem tomar por questões de saúde, e algumas poucas pessoas podem tomar e não se imunizarem. Por isso que o fato de tomar a vacina é uma ação que vai proteger você e os outros. Quando um governante defende uma suposta liberdade individual, ele não pensa no coletivo e nem na sociedade”.

O embate já está posto mesmo sem resultados certeiros sobre qual será a primeira vacina do mundo aprovada em todos os parâmetros de segurança [leia mais abaixo sobre como funcionam as vacinas]. De acordo com os últimos registros da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem ao menos 179 vacinas experimentais contra o coronavírus. Cerca de 34 delas já estão sendo testadas em humanos.

Uma delas é a popular “vacina de Oxford”, feita em uma parceria entre a universidade inglesa e o laboratório AstraZeneca. Na semana passada, os testes da fase mais abrangente da vacina, que é aplicada em 18 mil voluntários no mundo, foram interrompidos após uma pessoa ter uma reação adversa.

Apesar do procedimento ser absolutamente comum e indicar seriedade no acompanhamento clínico da vacina em humanos, isso também impulsionou os antivacina a aumentarem a carga de desconfiança.

“Uma tendência muito forte do movimento antivacina é que eles se posicionam contra algo que sequer foi aprovado e divulgado como seguro ainda”, afima Gregório Fonseca. “A Ciência fica em segundo plano: eles buscam argumentações como defesa de liberdades individuais, teorias da conspiração e questões religiosas”.

 

Expectativa para vacina pede ação de informação

João espera uma grande quantidade de desinformação na mesma hora em que uma vacina segura contra a Covid-19 for anunciada. Para ele, as postagens já estão todas prontas – as mesmas que são utilizadas nas campanhas de vacinas -, esperando apenas por mudanças simples de palavra para causar dúvida e pânico em usuários mais desavisados do processo científico.

“As pessoas vão ter muita ansiedade e curiosidade pra ver como a vacina repercute, e teremos provavelmente um tsunami de desinformação”, comenta o pesquisador. “Quando tem campanha para sarampo, a gente vê nesses grupos aquelas fotos de ‘essa criança tomou a vacina do sarampo, olha como ela está’, e é uma foto que não é nem desse ano, nem do Brasil”.

Outro fato destacado por João Henrique em relação à comunicação de que vacinas são seguras é o fato da página “Ministério da Saúde – Vacinação” no Facebook, que tem 1,1 milhão de seguidores, ter feito apenas uma publicação em três meses. A principal campanha destacada ainda é a da vacinação contra gripe, encerrada no dia 30 de junho.

“A campanha pela informação precisa acontecer em larga escala desde agora. A população precisa de informação baseadas em evidências científicas sobre o andamento das pesquisas”, destaca João. “Não é obrigar a tomar a vacina, mas educar as pessoas para que elas sintam confiança e vejam a importância disso no nível individual e coletivo”.

 

NARRATIVA DO DNA ALTERADO É POPULAR ENTRE GRUPOS ANTIVACINA, QUE SE AMPARAM EM NEGACIONISTAS INTERNACIONAIS PARA DAR SUSTENTAÇÃO ÀS SUAS TESES. NESSE CASO, O FACEBOOK ALERTA QUE A PUBLICAÇÃO TEM CONTEÚDO FALSO POR MEIO DE UMA NOTIFICAÇÃO DE CHECAGEM (FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK)

 

Nos Estados Unidos, pesquisadores já identificaram que a campanha massiva de negacionistas pode ter um efeito preocupante na imunização da população.

Um levantamento feito pela empresa de pesquisa de opiniões Gallup Poll identificou que, se os americanos tivessem acesso a uma vacina aprovada pelo Food and Drug Administration (agência de Saúde dos EUA) hoje, apenas uma em cada três pessoa aceitaria tomar a dose imunizante.

Os recortes da pesquisa apontam ainda que, entre os republicanos, partido do presidente Donald Trump, apenas 47% aceitariam a vacina, em contraste com os 80% dos democratas e 59% dos eleitores sem partido definido que afirmaram que aceitariam se imunizar.

 

Para relembrar: como funcionam as vacinas?

A ação de uma vacina pode ser explicada em poucas palavras: antecipar o contato do corpo com um microorganismo de forma segura, preparando nosso sistema imunológico para quando esse antígeno [o vírus] de fato tentar provocar uma infecção. Um corpo vacinado já tem anticorpos, sabe o caminho para produzi-los e, portanto, se defende mais rapidamente.

O desenvolvimento de uma vacina nos dias atuais é um trabalho complexo de estabelecer a melhor maneira de expor o corpo, de forma segura, a esse contato antecipado. As vacinas precisam conter ao menos pedaços dos microorganismos, que sejam inofensivos o suficiente para serem seguros de injetar no corpo humano. Mas, por outro lado, essas frações precisam ter as informações necessárias para que o corpo consiga trabalhar na produção de anticorpos e se preparar para a infecção.

As propostas de vacinas consideradas mais viáveis passam por testes em laboratório, em que são observados os potenciais de estimular a produção de anticorpos em células expostas. Outro objetivo central é avaliar se o contato dessa formulação com o organismo produzirá efeitos adversos.

Nessa etapa da pesquisa, os cientistas utilizam testes in vitro e também em animais que têm uma resposta imunológica semelhante à dos seres humanos, como outros primatas. Além de observar a resposta provocada pelas vacinas, essa etapa busca garantias de que há segurança suficiente para iniciar testes em seres humanos.

O assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Akira Homma, explica que esses testes exigem laboratórios sofisticados, que ofereçam segurança para lidar com os antígenos. Quando os testes em laboratório comprovam que uma vacina é capaz de estimular a produção de anticorpos sem oferecer riscos ao organismo, começa a fase mais longa da pesquisa, que é a testagem em seres humanos, chamada de testes clínicos.

Homma acrescenta que esses testes são divididos em quatro fases.

Na Fase 1, é demonstrada a segurança da vacina a partir de testes em um grupo reduzido de pessoas jovens e sadias.

Já na Fase 2, os pesquisadores partem para um grupo com centenas de voluntários, incluindo integrantes das populações-alvo da vacinação, como crianças e idosos, se for o caso. Nessa fase, a pesquisa busca também definir a melhor dosagem da vacina para a produção das defesas do organismo.

A etapa mais longa do desenvolvimento de uma vacina costuma ser a Fase 3, em que a observação é ainda mais extensa, com milhares de voluntários. O objetivo dos pesquisadores, com essa etapa, é verificar a eficácia da imunização, comparando um grupo de pessoas vacinadas com outro que recebeu doses de placebo.

 

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