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Gente ‘invisível’: analista avalia riscos com que indígenas urbanos lidam no Brasil ante pandemia

BRASIL

Um relatório denunciando a falta de políticas públicas para indígenas urbanos no Brasil será enviado à Organização das Nações Unidas (ONU). A Sputnik Brasil ouviu um dos organizadores do estudo, que apontou que a invisibilidade desse grupo gera vulnerabilidade social agravada pela pandemia da COVID-19.

A Articulação Nacional de Indígenas em Contextos Urbanos e Migrantes é a principal organizadora do relatório que será entregue à ONU denunciando a “invisibilidade” desses povos e a sua situação no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil.

O documento denuncia a falta de políticas públicas para indígenas que vivem em zonas urbanas no país, em particular no que se refere à pandemia. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos mais de 800 mil indígenas no país, 38% vivem nas cidades.

Marcos Aguiar, coordenador do projeto Indígenas na Cidade, da ONG Opção Brasil, e um dos idealizadores do relatório, explica que essa situação é conhecida e ressalta que todas as capitais brasileiras têm presença indígena, mas que há falta de recursos para o monitoramento dessas populações.

“Quando se fala, por exemplo, em subnotificação da COVID-19, também tem a subnotificação em relação aos indígenas de forma geral. E se tem essa subnotificação [na população indígena em geral], […] [há] mais na questão urbana. É o caso, por exemplo, de indígenas que faleceram por COVID-19 no Brasil e foram colocados como não indígenas por estarem na cidade”, afirma Aguiar em entrevista à Sputnik Brasil.

Conforme publicou o site Rede Brasil Atual, o relatório a ser enviado para a ONU define a situação indígena no contexto da pandemia como uma “política genocida de Estado” que se expressa com “números assustadores”. Segundo aponta a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a taxa de mortalidade da COVID-19 entre indígenas é duas vezes maior do que a da população em geral.

Familiares no funeral do cacique Messias Kokama, uma das principais lideranças indígenas de Manaus (AM), vítima da COVID-19, 14 de maio de 2020
© REUTERS / BRUNO KELLY
Familiares no funeral do cacique Messias Kokama, uma das principais lideranças indígenas de Manaus (AM), vítima da COVID-19, 14 de maio de 2020

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) aponta ainda que a população indígena tem a maior taxa de mortalidade por raça entre pacientes internados com a COVID-19 no país – 48%. Entre os pardos, a taxa é de 40%, enquanto entre pretos é de 36%, entre amarelos é de 34% e entre brancos é de 28%.

Em relação aos indígenas em zonas urbanas, essa situação é acompanhada do alto risco de contágio da doença. Segundo dados de estudo da FIOCRUZ, há 190.767 indígenas no Brasil que vivem nessa situação. O estudo destaca ainda que esse quadro de alto risco abrange 67,5% da população indígena urbana do Centro-Oeste e 79,4% da região Sul-Sudeste.

Marcos Aguiar ressalta que as populações indígenas urbanas estão sofrendo impactos sociais e econômicos durante a pandemia difíceis de mensurar devido à falta de políticas públicas, e que por isso tomou parte na iniciativa de enviar o relatório à ONU. Ele aponta que não há no Brasil políticas públicas voltadas a essas populações.

“Por conta desses fatores e outros, que começam desde a invisibilidade do indígena no meio urbano a esse processo da saúde, do preconceito, e até dessa geração de renda, entre tantos outros, a gente pensou que é importante estar relatando isso”, recorda.

Sessão em homenagem aos povos indígenas no Senado
JANE DE ARAÚJO/AGÊNCIA SENADO
Sessão em homenagem aos povos indígenas no Senado

A pesquisa ouviu grupos indígenas de diversos estados do Brasil, articulando coletivos e organizações de todo o país para o relatório, explicitando a invisibilidade dessas populações que, segundo Aguiar, deixa marcas profundas entre os próprios indígenas urbanos.

“A grande São Paulo é falante de mais de 18 dialetos indígenas, o Rio de Janeiro também, Brasília também. É uma riqueza invisível”, aponta o ativista, ressaltando a importância de dar visibilidade a essas populações.