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Além da pandemia, sistema de saúde do DF precisa lidar com o crescimento da dengue

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Simultaneamente ou em curto espaço de tempo, há brasilienses que lutaram contra os dois vírus. Especialistas alertam para a importância do diagnóstico

Thais Umbelino; Samara Schwingel

Lidar com o crescimento da dengue durante a pandemia causada pelo novo coronavírus tem sido um dos desafios para o sistema de saúde. Os números mostram que a quantidade de pessoas infectadas pelo mosquito Aedes aegypti continua em alta na capital, com 43.857 casos até 1º de agosto de 2020. O número é 21,6% maior do que o registrado no mesmo período de 2019 — ano em que o DF bateu recordes históricos, com 36.070 notificações e 62 mortes. Já o coronavírus alcançou a marca de 143.759 mil diagnósticos e 2,2 mil óbitos, no boletim divulgado às 18h40 de ontem

Nesse cenário de risco duplo, um recorte chama a atenção: os infectados por dengue e covid-19. Seja simultaneamente, seja por uma distância curta, as duas enfermidades somadas podem abalar o sistema imunológico do paciente e causar confusão no diagnóstico. Damião Ribeiro, 56 anos, teve as duas doenças neste ano. Zelador do prédio onde mora, no Cruzeiro Novo, ele contraiu a dengue no início de junho e, uma semana depois, a covid-19. Ele passou oito dias seguidos com febre alta, falta de apetite e cansaço. “Não conseguia comer nada, e a febre oscilava entre 37°C e 38°C. Cheguei a pensar que poderia ser o novo coronavírus”, conta.

Para sanar as dúvidas, Damião foi ao posto de saúde. O médico que o atendeu suspeitou de dengue e o encaminhou para fazer o teste. Com o resultado positivo, o zelador passou uma semana em casa, tratando os sintomas. Após o período de descanso, Damião voltou ao posto de saúde para confirmar se estava curado da arbovirose. Nesse momento, o médico recomendou que ele fizesse o teste para a covid-19, por precaução. O resultado foi desanimador. “Tomei um susto quando o doutor me deu a notícia, pois não estava sentindo nada, nenhum sintoma. Mesmo assim, temi pela minha vida e saúde. Por isso, segui as orientações e fiquei isolado por mais 14 dias”, afirma.

O zelador recorreu à religião para ajudar a vencer a dificuldade. “Sou extremamente católico e rezei muito para que Nossa Senhora me ajudasse.” Agora, recuperou-se das duas viroses. “Foi horrível, fiquei muito triste com a situação, pois, além de tudo isso, eu sou idoso e hipertenso. Não quero passar por isso nunca mais”, afirma.

A dificuldade de Damião, ao confundir os sintomas da dengue com os da covid-19, é comum. Para evitar o equívoco, o especialista em clínica médica Daniel Salomão explica que é importante, em um primeiro atendimento, observar atentamente as reações do paciente. “É preciso tentar extrair sinais de alerta ou de gravidade, que são diferentes para cada doença. No caso da dengue, deve-se observar a ocorrência de sangramentos visíveis e queda de pressão. Em alguns casos, também há dor abdominal. Para o coronavírus, o mais emblemático está na falta de ar”, detalha o médico.

No caso de infecção simultânea, o especialista salienta que não há potencialização dos sintomas. “São doenças particulares, que afetam de formas diferentes cada ser humano. Mas isso não quer dizer que os sintomas serão mais intensos”, aponta. A sobreposição dos diagnósticos, porém, pode causar maiores riscos de complicações. “Ou seja, pode haver uma sobrecarga no sistema da pessoa, e ela apresentar sintomas mais graves das respectivas doenças”, relata Daniel.

A Secretaria de Saúde informa que não há dados concretos sobre quantas pessoas foram diagnosticadas com ambas doenças, mas explica que toda a assistência aos pacientes é prestada nos casos da covid-19 e da dengue.

Incertezas

A médica Marília Evangelista da Silva, 27, teve dengue e covid-19 ao mesmo tempo, no fim de abril. Ela conta que, no início, sentiu desconforto nos olhos e dores nas articulações. Um dia depois, começou a sentir dores em outras partes do corpo e na garganta; por isso, foi a um laboratório particular para fazer testes para as duas doenças. Após dois dias, recebeu a confirmação da dengue. “Confesso que cheguei a ficar aliviada, pois estava com muito medo de ser infectada pelo novo coronavírus”, relata. Ela começou a tratar os sintomas da doença, mas, sem seguida, recebeu o resultado do exame para a covid-19: positivo.

“Fiquei desesperada, chorei, liguei para a família toda, porque achava que uma doença agravaria a outra”, relembra Marília. Ela chegou a questionar as conclusões dos testes. “A médica que me atendeu disse que os testes rápidos não erram e que esse era mesmo o meu diagnóstico”, diz. Devido ao quadro, ela ficou 18 dias isolada no quarto do apartamento onde mora com o marido, no Noroeste. Atualmente, está curada e sem complicações. “Foi um susto muito grande, não desejo isso a ninguém”, ressalta.

A farmacêutica Thais Lopes de Moura, 25, também teve dificuldade na hora de identificar o que causava o mal-estar, com febre e dores de cabeça. “Eram sintomas clássicos da dengue. Como era a segunda vez que pegava, consegui reconhecer facilmente.” Além de testar positivo para a doença, ela decidiu fazer um exame para a covid-19. “Como no trabalho estava tendo vários casos, achei melhor fazer o teste, e o resultado foi positivo”, conta a moradora de Valparaíso (GO).

Os sintomas das doenças coincidiram.”Tive febre no primeiro dia, muita dor de cabeça, muita dor no corpo e atrás dos olhos, ânsia de vômito e mal-estar. Nos outros dias, fiquei gripada. Muita coriza, espirrava muito, perdi olfato e paladar e senti falta de ar leve”, descreve. Os diagnósticos, porém, não a surpreenderam. “Estava exposta no trabalho e em contato com várias pessoas e, mesmo tomando os cuidados, a probabilidade de pegar covid era alta”, observou Thaís. Apesar das dificuldades enfrentadas no isolamento, a esperança de melhora foi o que ajudou a farmacêutica. “Precisamos apenas ter um pouco mais de força para vencer esse tempo de mudança e, no fim, vai dar tudo certo”, declara.

Prevenção

Segundo Walter Ramalho, professor de epidemiologia da Universidade de Brasília (UnB), o mais importante neste cenário é seguir as medidas de prevenção. “Para a dengue, é preciso manter a limpeza da residência e observar acúmulo de água dentro e fora da casa. Para o novo coronavírus, o distanciamento social e o uso de equipamentos de segurança, como máscaras, são essenciais”, alerta.

A Secretaria de Saúde informa que, mesmo durante a pandemia, mantém o combate à dengue. Em nota, a pasta alega que, “todos os dias, os agentes de vigilância ambiental realizam as inspeções nos imóveis, dividindo-se pelas quadras da cidade. O DF conta também com o Sanear Dengue, um reforço no combate ao Aedes aegypti, no qual diversos órgãos do GDF passam o dia na região vistoriando imóveis, lotes abandonados e fazendo recolhimento de lixo, materiais inservíveis e carcaças. A cada dia da semana, esse reforço vai para uma região administrativa diferente”.

Dicas

Como evitar a proliferação do mosquito:

» Mantenha caixas d’água, tonéis e barris de água tampados

» Deixe garrafas de vidro ou de plástico sempre com a boca para baixo

» Encha os pratinhos ou vasos de planta com areia até a borda

» Limpe as calhas com frequência, evitando que galhos e folhas impeçam a passagem da água

» Em caso de identificação de focos do mosquito, acione a Vigilância Ambiental pelo telefone 160

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