Cidade Meio Ambiente

Jardim Botânico percebe movimentação diferente dos animais na pandemia

Os primeiros sinais de que os bichos estavam passeando por outros espaços foram o aumento dos vestígios encontrados, como pegadas e fezes

 

AGÊNCIA BRASÍLIA * I EDIÇÃO: CAROLINA JARDON

O isolamento social imposto para controlar a pandemia de Covid-19 tem transformado a vida e a rotina das pessoas. Sem poder sair de casa, as ruas e espaços antes ocupados ficaram vazios e silenciosos. No Jardim Botânico de Brasília (JJB), por exemplo, quem ocupa a área de visitação agora são os animais silvestres.

Veados, tamanduás-bandeiras, lobinhos-do-mato e aves de diversas espécies estão explorando novos espaços dentro da unidade em busca de alimentos já que não há visitantes

A mudança nos hábitos da fauna foi observada já no início do isolamento. A equipe de fiscalização do JBB realiza rondas diárias pelos cinco mil hectares das áreas abertas ao público e da Estação Ecológica do Jardim Botânico.

Os primeiros sinais de que os animais estavam se movimentando por outros espaços foram o aumento dos vestígios encontrados, como pegadas e fezes. Mas foi o olhar atento dos servidores e vigilantes que trabalham na unidade, somado às imagens das câmeras de monitoramento instaladas em locais estratégicos que constataram, que os bichos estavam ampliando a área de exploração e alterando os horários em que passeavam pelo jardim.

O biólogo e gerente de Educação Ambiental do JBB, Lucas Miranda, explicou a mudança no padrão de comportamento dos bichos desde o fechamento para visitação, em 23 de março. “A presença desses animais na área pública do jardim era observada antes da abertura dos portões, por volta das 7 horas, e depois do fechamento, às 17h. Agora, é possível avistá-los durante todo o dia. Sem a presença dos visitantes, o espaço virou um verdadeiro paraíso para os bichos. Os lagos e as plantas dos jardins temáticos acabaram atraindo a fauna”, reforçou.

No período, foram registradas a presença de diversos animais como veados-catingueiros (Mazama gouazoubira), tamanduás-bandeiras (Myrmecophaga tridactyla), lobinho do mato (Cerdocyon thous), além de cobras como jiboias (Boa constrictor), falsa-coral (Oxyrhopus trigeminus), jararaca (Botrhops sp.), e muitas espécies de aves.

Dados viram pesquisa

Todos os dados relacionados à presença da fauna no Jardim Botânico são coletados, catalogados e viram estatísticas importantes. “Aqui temos pesquisadores que sistematizam e analisam os dados que coletamos. Após uma avaliação detalhada das informações é possível determinar, por exemplo o grau de preservação do Jardim Botânico e identificar toda a biodiversidade presente em nossa área”, complementou Lucas Miranda.

A presença de animais como lobinho do mato conhecidas como espécies guarda-chuva, são fundamentais para avaliar se o ecossistema está equilibrado e em boas condições. Qualquer desequilíbrio, por mais tênue que seja, já faz esses bichos desaparecerem. “O tamanduá e a onça, por exemplo, precisam de toda uma biodiversidade, muitas vezes microscópica, que não conseguimos ver a olho nu, para se abrigarem e viverem em uma área. Por isso o avistamento dessas espécies é muito importante tanto do ponto de vista ecológico quanto do preservacionista”, argumentou o biólogo.

Os registros, portanto, demonstram que a área do JBB, incluindo sua Estação Ecológica, está equilibrada e conservada. Além do monitoramento da fauna, existe uma equipe de botânicos na unidade para complementar a análise da biodiversidade.

Mudanças de comportamento

Outro fator importante observado pelos biólogos é como alguns animais são suscetíveis às mudanças dos seres humanos. De acordo com Lucas Miranda, algumas espécies se acostumam e se dão bem em ambiente antropizados, que são locais onde há ocupação do homem, exercendo atividades sociais, econômicas e culturais sobre o meio ambiente.

“Há registros de bichos que tiram proveito de áreas rurais com pastagens e monocultura para facilitar a busca por alimento, por exemplo. Aqui no Jardim Botânico percebemos que muitos animais, principalmente os grandes predadores, caminham pelas estradas e trilhas que abrimos para os carros. Acreditamos que seja mais fácil o deslocamento por esses espaços mais abertos”, argumentou.

Durante o isolamento social, os biólogos do JBB notaram nitidamente a alteração do comportamento. As imagens mostram veados tomando banho no lago do Jardim Japonês no meio da tarde, se alimentando das espécies de plantas da Agrofloresta tranquilamente e visitando diariamente as flores do canteiro central do Centro de Visitantes em qualquer horário.

Conscientização

A expectativa dos servidores do JBB é que a divulgação das imagens dos animais explorando a área de visitação sensibilize a comunidade sobre a importância de respeitar as normas de conduta. “Vamos utilizar esses registros para dialogar com os visitantes e convencer sobre a necessidade de respeitar as regras desse espaço, que é uma unidade de conservação. Queremos que a pessoa, antes de ir embora, recolha seu lixo lembrando que algum veado ou lobo-guará pode transitar por aquele local”, adiantou o biólogo.

O respeito aos limites de velocidade nas vias internas também é outra preocupação. “Os motoristas precisam ter cuidado ao transitar. A ideia é que não precise de quebra-mola e que as pessoas façam isso pela natureza mesmo. Quanto mais devagar, maiores são as chances de avistar um animal e ter a oportunidade de presenciar algo raro”, completou Lucas Miranda.

A emoção de ver um animal silvestre de perto é indescritível e desperta admiração e encantamento pela natureza. “O contato com animais em ambiente natural é diferente de zoológicos, onde o visitante já tem a expectativa de ver o bicho de perto. Conseguir observar um veado por 5 minutos é algo raro e trará a sensação de pertencimento e bem estar. Sentimentos que só um fenômeno raro como esse pode trazer”, concluiu o biólogo.

* Com informações do Jardim Botânico