Indígena Kaiowá é assassinado e dez são feridos em ataque no MS

Crime ocorreu dentro de terra indígena reconhecida pela Funai no município de Caarapó

Do Brasil De Fato

O indígena da etnia Kaiowá Cloudione Souza, 26 anos, foi assassinado em um ataque dentro da Terra Indígena (TI) Dourados-Amambai Pegua I, no município de Caarapó (MS), cidade localizada a 273 km da capital Campo Grande. Cloudione era agente de saúde indígena e foi baleado na manhã desta terça-feira (14). O tiroteio deixou ainda dez feridos, inclusive uma criança, segundo relatos de indígenas. As informações são do Conselho Missionário Indígena (Cimi).

Os feridos foram levados ao Hospital Beneficiente São Mateus. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, entre os feridos, estão três policiais, um caminhoneiro e uma mulher indígena. As vítimas em estado mais grave serão encaminhadas ao Hospital da Vida, em Dourados.

Matias Benno, missionário da regional do Cimi no Mato Grosso do Sul, conta que os primeiros relatos começaram a chegar às 10h. O ataque teria sido promovido por um grupo de fazendeiros e pistoleiros. “Difícil precisar o quanto, mas eles [indígenas] falaram em cerca de 80 caminhonetes”, disse Matias.

Os indígenas denunciaram também que os primeiros tiros disparados foram de balas de borracha. A Polícia Civil afirmou que ainda está apurando o ocorrido e não forneceu informações sobre o caso.

Lideranças teriam denunciado às forças de segurança que carros estavam rondando a área desde o último domingo (12), quando cerca de 300 Guarani e Kaiowá retomaram uma pequena área de aproximadamente 5.000 hectares dentro dos limites da TI. A área total do território é de 55.000 hectares.

“Este é o 25º ataque paramilitar desde a morte de Oziel, última liderança sumariamente assassinada no estado”, denunciou Matias. Ele se refere ao caso do indígena Terena Oziel Gabriel, assassinado em 2013 em Sidrolândia, município onde incide a Terra Indígena Buriti. Os ataques, diz Matias, têm sido sistematicamente denunciado. “O ano passado, tivemos três ou quatro ataques conferidos que poderiam ter levado a óbitos também”, disse.

Os casos de violência praticadas contra os povos indígenas de 2000 a 2015 foram levados à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, através de uma Comissão Parlamentar do Inquérito (CPI), que ficou conhecida como a CPI do Genocídio. O relatório, que foi concluído no último dia 9, insentou a atuação do Estado nos crimes. “Os deputados, certamente alinhados ao ruralismo do estado, disseram que não houve nem responsabilidade do Estado nem que ataques ocorrem contra os indígenas. E hoje tivemos mais um caso”, disse.

O missionário explica que os indígenas esperam pelo processo de demarcação da TI, entre os rios Dourados e Amambai, há mais de dez anos. O reconhecimento da TI foi o último assinado por João Pedro Gonçalves à frente da Funai, em 12 maio de 2016. O estudo contempla sete terrirórios indígenas: Teyi Jusu, onde ocorreu o ataque, Javoray kue, Pindoroky 1, Pindoroky 2, Laguna joha, Urukuty e Itaguá.

Em 2007, as demarcações do Mato Grosso do Sul pela Fundação Nacional do Índio (Funai) foram priorizadas em decorrência dos conflitos na região. O órgão afirmou também estar apurando ocorrido.

Em nota, a Secretaria Especial de Saúde Indígena do ministério da Saúde (Sesai/MS) manifestou “pesar aos familiares” de Cloudione. “O jovem agente foi morto covardemente, por homens armados que atiraram em cerca de mil indígenas, incluindo quatro agentes de saúde indígena, que estavam reunidos no território próximo a aldeia Te’ Ýikuê”, diz o documento.

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