Apesar do racismo, jovens se reafirmam negros e buscam representatividade

“As pessoas abraçam a ideia de que o Brasil é uma país que preza pela democracia racial, mas qualquer pessoa que colocar o pé aqui sabe que isso não existe.” A avaliação é feita pelo estudante Alban Amindu, 28 anos. Ele veio há três anos do Benin, país da região ocidental da África, para fazer intercâmbio na Universidade de Brasília (UnB). A opinião se repete. “O olhar para com o negro é diferente. Nunca tinha passado por isso”, conta Aicha Dioe, 37. Ela veio para o Brasil há nove meses acompanhar o marido, que é diplomata. O casal é do Senegal.

As declarações podem causar estranheza, mas os negros que vivem no país são categóricos. A democracia racial brasileira é uma farsa. Na segunda-feira é celebrado o Dia da Consciência Negra. O fim de semana na capital terá uma extensa programação cultural que chama a atenção para a valorização da cultura e o reconhecimento da contribuição do povo negro para a história (veja Programe-se). Para marcar a data, o Correio conversou com dois imigrantes africanos para debater a questão racial no Brasil.

Ao declarar a Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu que os povos afrodescendentes precisam ter os direitos humanos promovidos e protegidos. O objetivo é proporcionar uma vida igualitária. É o que sonham Alban e Aicha, os personagens que o leitor conheceu no início da reportagem. “O preconceito foi tão traumático que em duas semanas eu tive vontade de ir embora. O olhar, a forma de tratamento e as desconfianças que as pessoas têm com o negro são assustadores”, conta Alban.

Ao caminhar pelos corredores da UnB, ele explica. “As pessoas querem dizer que são amigas de preto, que convivem, mas não respeitam sua cultura, não valorizam sua contribuição para a sociedade. Tornou-se bonito defender o negro, mas poucos são aqueles que se preocupam realmente com seus problemas e querem mudar essa situação”, pondera o rapaz, que vive em um apartamento com outros estudantes africanos.

Mas o que difere o Brasil de países como Benin e Senegal? A conclusão de Alban e Aicha é que, apesar de sermos a segunda maior nação negra do mundo — 54% da população é negra, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, desprezamos as nossas raízes africanas. “Em Benin, a cor da pele não é motivo para diferenciar as pessoas”, destaca.
Representatividade

No próximo ano, a Lei Áurea completa 130 anos. O passar do tempo não bastou e a igualdade racial ainda é uma utopia no país. “A juventude negra é assassinada diariamente. Não se pode tratar esse assunto como apêndice. Isso deve fazer parte do projeto de governo para o país. Tratar o negro como minoria é uma violência”, critica Jacira da Silva, uma das organizadoras no DF do Movimento Unificado Negro.

A entidade realizou no começo do mês o 18º Congresso Nacional do Movimento Negro Unificado, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Mais de 200 representantes de todos as unidades da federação participaram. “O que precisa ser feito é reconhecer a importância da contribuição negra para o país. O processo de conscientização está acontecendo, mas precisamos intensificar a representatividade do negro”, conclui Jacira.
Conscientização

O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro porque essa é a data da morte, em 1695, de Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares. Criado em 2003 e instituído em âmbito nacional em 2011, a comemoração é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.
Programe-se

Veja a programação especial para a semana da Consciência Negra

Festival São Batuque

Encontro de Batuqueiros
Quando? Hoje
Onde? Praça Zumbi dos Palmares (Conic)
A que horas? Das 18h às 21h
Entrada franca

Sernegra
A Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça (Sernegra), com exibição de filmes como Mulheres negras: projetos de mundo e Das raízes às pontas, além de roda de conversa com as diretoras Day Rodrigues e Flora Egécia.

Quando? 20, 21 e 23 de novembro
A que horas? Às 16h (domingo), às 9h30 (segunda-feira) e às 9h30 (quarta-feira)
Onde? Cine Brasília
Entrada franca

Espetáculo Mosoró Dayo — Grupo Obará
Trazendo aos palcos a nossa ancestralidade por meio da corporeidade, o Grupo Cultural Obará realiza uma nova temporada com o espetáculo Mossoró Dayo, no qual apresenta dança, teatro, cantos em iorubá e a música para falar do negro e da cultura afro-brasileira.

Quando? 22 e 23 de novembro
A que horas? Às 15h
Onde? Teatro Unip Ulysses Guimarães, SGAS Quadra 913, s/nº, Conjunto B
Entrada franca

Palestra Racismo Institucional
O evento tem como objetivo a capacitação para servidores do Metrô sobre a promoção da igualdade racial, bem como difusão do conhecimento básico a respeito de normas e leis pertinentes ao combate ao racismo institucional, com o professor Mário Theodoro

Quando? 23 de novembro
A que horas? Às 10h
Onde? Auditório da Sede do Metrô-DF, na Av. Jequitibá, 155, Águas Claras.
Entrada franca

Desfile Beleza Negra
A iniciativa tem como missão o combate ao racismo e à discriminação no mercado da moda e na mídia de um modo geral

Quando? 23 de novembro
A que horas? Às 17h
Onde? Estação Central do Metrô
Entrada franca

Denuncie

Se você sofreu alguma discriminação, denuncie. O Disque Racismo funciona no número 156, opção 7.

Fonte: Correio Braziliense

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