Faixa de pedestre salva vidas, mas precisa de cuidados para não ser apagada

Em 1969, os Beatles imortalizavam a passagem de pedestre na antológica foto em Abbey Road, em Londres. Vinte e oito anos depois, foi a vez de Brasília implantar toda uma cultura voltada à faixa de pedestres e à cidadania no transporte onde os veículos não são os protagonistas. A capital lançou, em 1997, uma intensa campanha de conscientização e o avanço obtido é real, mas vem dependendo de mais cuidados e atenção a cada dia. Grande parte das 7 mil faixas em vias urbanas do DF sofre com falta de manutenção, linhas desbotadas e carência de iluminação. Além disso, novos motoristas não compartilham da cultura de respeito.

Conforme pesquisa no próprio site do Departamento de Trânsito (Detran), os gastos em sinalização horizontal e vertical foram de R$ 1,6 milhões, R$ 7,7 milhões e R$ 5,9 milhões, ao longo de 2015, 2016 e 2017. No caso de ações educativas, os valores foram de R$ 17 milhões, R$ 21 milhões e R$ 14 milhões, nos mesmos períodos. Ou seja, inicialmente o governo acelerou os investimentos totais de R$ 18,6 milhões para 28,7 milhões, entre 2015 e 2016. Mas colocou o pé no freio no ano seguinte, reduzindo para R$ 19,9 milhões, quase voltando para a marca de 2015.

Moradora de São Sebastião, a doméstica Francisca Raquel Nunes de Souza, de 32 anos, vive na pele o drama das faixas apagadas, tanto no papel de condutora, quanto de pedestre. Os pontos de passagem na cidade estão em péssimas condições. Recentemente, enquanto dirigia à noite pela avenida principal, entre os bairros São José e São Francisco, Raquel quase atropelou um adulto e uma criança que atravessavam na passagem. “Durante a noite mesmo fica bem difícil de visualizar os pedestres. Quando eu me assustei já estava quase em cima deles. Dei aquela freada e pedi desculpas. Estava bastante escuro e não vi eles. Hás vezes as pessoas culpam os motoristas. Mas a culpa nem sempre é totalmente deles”, desabafa a doméstica.

Raquel tem orgulho do povo do DF ter abraçado a cultura da faixa. “Mas falta sinalização, iluminação. Falta o pedestre também ter mais cuidado. Porque ele é a parte mais frágil. Tem que cuidar mais. Onde tem vidas em jogo é sempre muito arriscado”, comenta. Segundo a doméstica, de maneira geral, o trânsito em São Sebastião está caótico e precisa ser organizado.

Na Asa Norte, entre as quadras 207 e 407, a faixa está apagada há alguns meses. Quase diariamente, o servidor público Amon Paiva, de 29 anos, utiliza a passagem e é respeitado. Mas justamente antes de conversar com o Jornal de Brasília, foi desrespeitado por um motorista, cujo pé nem resvalou no pedal de freio.

Amon nasceu em Petrolina (PE) e, segundo o servidor, o município também investiu pesado na valorização da faixa, colocando guardas nas passagens para alertar e multar motoristas. Para Paiva, o investimento na cultura da faixa é bom para todas as partes no trânsito. “É bom para o pedestre. É bom para o motorista. Porque evita a colocação de semáforos e proporciona o melhor fluxo na pista”, pondera.

Avanços existiram, mas negligência tem gerado reclamações

Problemas nas faixas também são relatados pelos brasilienses de todas as regiões administrativas, como Taguatinga e Ceilândia, por exemplos. As palavras da população encontram eco na análise do professor da Universidade de Brasília (UnB) especialista em segurança de trânsito Davi Duarte. “Foi um avanço muito grande. Antes da faixa, o pedestre não tinha lugar de travessia. Com essa inversão de prioridade, passou a ter mais circulação. No primeiro ano da campanha, a mortalidade de pedestres no DF diminuiu 39%. É muita coisa”, comemora.

Contudo o especialista não tem duvida da negligencia do Estado na manutenção desta cultura de vida. Não apenas, por parte do governo atual de Rodrigo Rollemberg (PSB), mas também dos últimos condutores do Palácio do Buriti. Na interpretação do especialista, a faixa ainda é respeitada porque a população a abraçou e se apropriou culturalmente desse ato civilizatório. Contudo a médio e longo prazo, tudo poderá ser perdido, sem os devidos investimentos. Na questão física, o problema não reside apenas na ausência de manutenção da faixa. Segundo Duarte, a limpeza das vias é precária. Com o passar dos veículos, areia, terra e demais detritos entram em atrito com a faixa, como se fossem lixas, desgastando o patrimônio público.

“E há o aspecto da conservação intangível: da atitude em relação à faixa. Todos os anos chegam na cidade pessoas de fora, além dos novos condutores. Hoje não tem mais fiscalização e policiamento diariamente em todas as faixas, ostensivamente, como no lançamento da campanha, há 21 anos. Isso é igual a determinadas vacinas. Quando começa a cair a capacidade de imunização, você dá outra dose para recuperar a proteção”, alerta o especialista. E para Duarte, a presença de agentes do Detran e da Polícia Militar deve ser educativa e não punitiva. “O motorista que não respeitar a faixa deverá ser abordado e poderá escolher entre assistir a um curto vídeo educativo na hora ou receber uma multa”, sugere.

Por enquanto, cenário está positivo

Segundo o Detran, em 2016, foram registrados 363 acidentes fatais, sendo 127 atropelamentos de pedestres. Deste último grupo, cinco ocorreram em faixas de pedestre. O ano passado fechou com 243 acidentes fatais, dentre eles 81 atropelamentos de pedestres com morte. Somente quatro aconteceram em faixas de pedestres não semaforizadas.

Neste domingo (1º), o departamento fará a 8ª Corrida “No Trânsito Somos Todos Responsáveis”. Além do  21º Aniversário do Respeito ao Pedestre na Faixa, também pretende comemorar o próprio aniversário de 51 anos. Equipes de educação de trânsito estarão nas cidades realizando ações educativas com a presença do Super Ando, o “herói dos pedestres”, e outros personagens do Detran. Também está programado o lançamento de uma campanha educativa nas mídias.

“Símbolo do DF”

“A faixa é um símbolo do DF, poucas cidades do Brasil que consegue manter esse símbolo. E estamos trabalhando para mantê-lo, com engenharia e educação”, comenta o diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca. Sobre a questão da conservação das faixas, o departamento diz estar atento à situação. De acordo com Fonseca, existem contratos de conservação com garantia dos serviços. Alguns estão em fase de renovação, como é o caso do Plano Piloto. “Nós temos várias caixas d’água de captação ecologicamente correta da chuva, para lavar a faixa. E constantemente buscamos novas tecnologias”, completa. Neste ano, o sistema de captação já acumulou entre 50 mil e 60 mil litros de água para a limpeza das vias.

Em relação à Taguatinga e Ceilândia, o diretor-geral argumenta que as cidades apresentam asfalto bastante deteriorado, o que aumenta o desgaste das faixas. O problema é agravado pelo fato de determinados trechos serem usados com frequência por veículos pesados. Outro problema, em diversos pontos do DF, é derramamento de derivados de petróleo, especialmente por postos de combustível com lavagem de carro. “Fazemos ações educativas. Com todo respeito aos especialistas, eles precisam participar mais do dia a dia das cidades. Conseguimos a maior redução das mortes no trânsito, em geral. Falta um pouco de conhecimento”, rebate Silvain.

Investimentos e projetos

Sobre os investimentos aplicados em sinalização e ações educativas nos últimos três anos, divulgados na própria página eletrônica do departamento, o diretor-geral justifica alegando que os contratos têm garantia, por isso o fluxo de recursos varia. Em outras palavras, se em um ano ele precisa sacar mais dinheiro, nos seguintes fica respaldo, contratualmente, de novos desembolsos para manutenção. Por outro lado, Fonseca acrescenta que o Detran também recebe apoio de programas externos, a exemplo de uma parceria com a Unesco. Além de conseguir mão de obra para a conservação em outro projeto com a Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap).

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