Evento no Parque mostra importância do combate à violência doméstica

Com o objetivo de quebrar a rotina de casos de violência doméstica que ainda resistem em diversas famílias do Distrito Federal, o programa Rompendo o Silêncio vai promover, hoje, a segunda edição da ação solidária do projeto, no Parque da Cidade, em que são esperadas mais de mil pessoas, com palestras, atividades culturais e físicas. A ideia é dar voz às mulheres que se calam diante de abusos morais e agressões físicas por companheiros.

 
O público também poderá ver a mostra Nunca me calarei, que leva a assinatura do fotógrafo carioca Marcio Freitas. Ao todo, são 130 imagens de mulheres vítimas de violência. Dor, medo, mágoa e raiva estão entre os sentimentos revelados nas fotos. A exposição já esteve no Masp, em São Paulo; na Praia de Copacabana, no Rio; e na Câmara Legislativa do DF.

“A proposta de Rompendo o Silêncio nasceu da necessidade de conscientizar a sociedade das diversas formas de violência às quais as mulheres continuam expostas, realizando um trabalho de prevenção com a população, a fim de conscientizá-la da importância de ações preventivas”, destaca a juíza Rejane Suxberger, titular do Juizado de Violência Doméstica e da Família de Sobradinho e coordenadora do programa.

Para ela, uma das formas de prevenção contra esse ato criminoso é falar sobre o tema e fazer com que as mulheres adquiram confiança e respeito. “É importante quebrar esse ciclo de crueldade para se posicionar. Em janeiro de 2016, teve um caso no juizado onde atuo, no qual uma mulher pediu para retirar a medida protetiva. E aconteceu o pior. Foi morta pelo companheiro à tesourada”, lamenta.

Conforme a juíza, são quatro os principais fatores de risco dos abusos cometidos contra a mulher. No topo da lista está o alcoolismo, seguido de baixo índice de escolaridade, situação econômica e falta de sociabilidade de moradores rurais. “O que angustia é ver a impotência da mulher. Hoje são mais de três mil processos de casos de violência doméstica no juizado que estou à frente. Por isso, o debate acerca dessas questões que afetam diretamente milhares de mulheres desafia a todos. Além disso, o programa também oferece tratamento psicológico em parceria com a Universidade do Distrito Federal (UDF). Já passaram por esse tratamento mais de 100 mulheres. Atualmente, são 30 que fazem terapias em grupo e individuais”, afirmou.

Opressão

Mesmo com a Lei Maria da Penha, que completa 11 anos em 2017, os índices de crimes cometidos contra as mulheres revelam um cenário de opressão, traumas e sequelas. Segundo levantamento feito pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, entre os meses de janeiro a março deste ano, 3.420 mulheres sofreram crime de violência doméstica, das quais sete morreram. Só neste ano, Brasília registrou 168 casos de estupro .

Ainda segundo a magistrada, especialista em ciências criminais e estudiosa dos temas gênero e igualdade, os gastos que se têm com crimes relacionados à violência contra a mulher representam 2% do Produto Interno Bruto (PIB) global. “A Organização das Nações Unidas (ONU- Mulheres) alertou para os custos da violência contra as mulheres no mundo e divulgou esse resultado em levantamento feito no período entre 2014 e 2016, o que equivale a US$ 1,5 trilhão”, destacou.

Professora titular de antropologia na Universidade de Brasília (UnB), Lia Zanotta Machado reforça que a questão da violência contra a mulher no Brasil vem desde o Brasil colônia. “O papel da mulher era manter a harmonia no lar. Era considerada como o espelho da família. Quando havia algum conflito, a sociedade a culpava. Hoje, não tem mais sentido aceitar essa brutalidade e existe um reconhecimento de que mulheres e homens têm a mesma capacidade e responsabilidade. Temos de pensar na igualdade,” destacou a antropóloga, que também falou da necessidade de programas de reeducação aos agressores e terapia para as mulheres.

Uma das voluntárias no Rompendo o Silêncio já foi vítima da violência e hoje ajuda outras mulheres a lidar com os traumas. Com o nome fictício de Olga, por temer represálias do ex-marido, a psicóloga relata alguns episódios pelos quais sofreu agressões físicas e morais. Por ser negra, também teve de ouvir xingamentos racistas.

“Quando engravidei, vivenciei um período de turbulência com muitas traições. Assim, ele me violentava emocionalmente a cada dia. Depois que a minha filha nasceu, fiquei muito gordinha e tive depressão pós-parto. Mas o violentador não se importava. Tínhamos brigas violentas com frequência. Ele me batia e dava muito soco na cabeça, porque sabia que não deixaria marcas. Além disso, ele me xingava. Chegou a me trancar várias vezes em casa para eu não sair”, disse.

“Mundo de fantasia”
Questionada a respeito de permanecer com um homem violento, ela apenas disse que esta é uma pergunta que o senso comum faz. “Como vivi por seis anos com aquele homem? Só queria ser amada e ter uma família — o velho sonho de que o príncipe vai levar você para um mundo de fantasia”.

Para Olga, o ciclo de violência continuava porque no dia seguinte ele pedia desculpas. “Só consegui sair desse pesadelo quando o violentador entrou em casa e teve um surto. Ele amassou bananas no chão, me chamou de macaca e me expulsou de casa. Minha filha estava na escola. Na época, ela tinha 5 anos. Naquele momento de ofensa racial, consegui resgatar minha autoestima e o denunciei. Entrei com o processo da Lei Maria Penha e tive várias medidas protetivas na época. Hoje, só conversamos sobre a minha filha.”

Após a denúncia contra o ex-marido, ela disse que permaneceu de luto por um longo período. “Tive que entender isso para poder me relacionar com o mundo. Fiz tratamento psiquiátrico e psicológico. Hoje mantenho a terapia. Saí do ciclo de codependência emocional, posso ajudar mulheres que sofreram violência doméstica e que perderam a voz,” afirma.

II Ação Solidária Rompendo o Silêncio
Programação

» Palestras das 9h20 às 12h40

» Aulão de alongamento e dança com a Academia Acuas Fitness (9h20);

» Apresentação de Dança de
Carimbó das Crianças do
Riacho Fundo (9h50);

» Apresentação de hip-hop com
Camila Rodrigues e Dihéssika Wendy (10h20);

» Aulão de zumba, com a professora Marcia Motta (10h50); apresentação da banda de percussão Maria Vai Casoutras (11h20)

» Aulão de crossfit da Academia Kamon (12h10)

» Apresentação da Banda Batalá de Brasília (12h50).

Haverá, ainda, atendimentos na área da saúde (Enfermagem da UnB); cortes de cabelo (Helio Diff); oficina de artesanatos (Casa Abrigo); medição de pressão e testes de glicemia; fisioterapia; além da assistência da Unidade Móvel de Acolhimento às Mulheres.
Local: Estacionamento 12, do Parque da Cidade. Realização: Associação dos Magistrados

A violência contra a mulher no DF
Segundo relatório da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, em 2016 foram registrados 13.212 casos de crime contra mulheres. 62% foram casos de ameaça e injúria.
Em 6.809 situações houve algum tipo de agressão. A maioria dos autores das violências são homens (90% dos casos) e possuem faixa etária entre 25 e 35 anos.

As mulheres mais agredidas são as que estão na faixa etária entre 18 e 30 anos, grupo responsável por 5.412 das queixas prestadas (38% do total).

Fonte: Correio braziliense

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