Esporte

Maya Gabeira, a domadora de ondas gigantes

Maya Gabeira surfa a onda que lhe valeu o novo recorde mundial.REUTERS

A surfista brasileira é a mulher que surfou a maior onda do mundo. Depois de um traumático acidente, ela alcançou outro feito que parecia improvável: bater o próprio recorde

Por BREILLER PIRES

Nazaré, uma pequena cidade do litoral oeste de Portugal, representa para Maya Gabeira (Rio de Janeiro, 1987) o local de seu renascimento e, sobretudo, de sua dupla consagração. Foi lá que a surfista carioca sofreu, há sete anos, um grave acidente ao despencar de uma onda gigante. Superou lesões e o trauma da queda ao retornar às suas águas agitadas em 2018, quando se tornou a mulher que surfou a maior onda da história (20,7 metros). Este mês, a Liga Mundial de Surfe (WSL) reconheceu que uma nova marca obtida por Maya (22,4 m), em fevereiro, bateu o recorde de dois anos atrás.

“Surfar essa onda foi algo especial, mas, ao mesmo tempo, muito assustador”, contou a brasileira à entidade após a confirmação do feito. “Eu estava em Nazaré com o intuito de aproveitar o momento e, por sorte, aconteceu de novo.” A descida em velocidade na onda gigante durou pouco mais de 10 segundos, o suficiente para quebrar o próprio recorde. Em 2018, ela teve de criar um abaixo-assinado para que o Guinness Book reconhecesse sua marca, já que o livro dos recordes mundiais não distinguia categorias masculina e feminina entre surfistas —o recorde entre os homens pertence a outro brasileiro, Rodrigo Koxa (24,4 m).

Entretanto, antes de virar recordista, Maya precisou deixar para trás as marcas do acidente em 2013. Depois de cair da prancha, a surfista foi engolida por uma sequência de fortes ondas, que a deixaram desacordada. Foi resgatada, reanimada na praia, e chegou ao hospital de Nazaré com uma fratura no tornozelo. Exames mais apurados constataram lesões na coluna. Teve de passar por três cirurgias e um longo período de reabilitação física. Quando foi liberada para voltar a surfar, experimentou os traumas psicológicos da queda. Tinha pesadelos à noite e começou a sofrer com crises de pânico.

Maya Gabeira, durante evento que premia os melhores esportistas do ano
Maya Gabeira, durante evento que premia os melhores esportistas do anoTOBIAS SCHWARZ / AFP

Decidiu, então, fixar residência em Nazaré. Surfando diariamente nas águas geladas, aos poucos ela reencontrou a confiança e desenvolveu dois mantras que a ajudaram a atravessar o processo de recuperação do corpo e da mente. “Cicatriz é história”, costuma brincar com outros surfistas sobre as marcas deixadas pelas cirurgias. “Medo é essencial”, diz, ao explicar como o acidente fez com que se tornasse mais cautelosa e atenta aos limites do mar, ciente de que, apesar do talento, não tem obrigação de domar todas as ondas que surgem em seu caminho.

Maya começou cedo no esporte, aos 13 anos. Ainda adolescente, viajava em altas temporadas para o Havaí, onde trabalhava como garçonete e lavava pratos enquanto disputava suas primeiras competições de surfe. Desde então, desenvolveu uma rotina regrada de sono para acordar cedo e aproveitar os “dias grandes”, de mar cheio e ondas em profusão. Antes de se converter em uma das maiores surfistas de sua geração, ela era conhecida apenas como filha do jornalista e ex-guerrilheiro, Fernando Gabeira. Ele integrou a luta armada contra a ditadura militar no Brasil, passou quase uma década no exílio e foi deputado federal pelo PT, partido de esquerda com o qual rompeu após a eleição de Lula à Presidência. Maya, por sua vez, nunca se envolveu com política. Embora não tenha aderido ao movimento #EleNão, de mulheres que se opuseram à candidatura de Jair Bolsonaro na última eleição, manifestou publicamente —ao contrário do pai— que não votaria no candidato direitista, que se elegeu presidente.

Neste ano, a brasileira se tornou a primeira mulher a competir com homens no principal evento da WSL em Nazaré. Eleita seis vezes a melhor surfista da temporada, Maya descarta a possibilidade de mudar de categoria para disputar uma Olimpíada —o surfe será atração olímpica pela primeira vez nos Jogos de Tóquio. Entende que, aos 33 anos, encontrou no mar agitado seu refúgio de calmaria. “Meu esporte é vencer o medo todos os dias. Não me vejo longe das ondas gigantes.”

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