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Trem de levitação magnética é mais uma vítima da asfixia financeira na Ciência

PROTÓTIPO DO MAGLEV COBRA (FOTO: DIVULGAÇÃO COPPE/UFRJ)

Projeto desenvolvido pela Coppe/UFRJ é desativado por falta de investimento

Carta Capital

Às vésperas de completar seis anos de atividade, o protótipo MagLev-Cobra, trem de levitação magnética desenvolvido pela Coppe/UFRJ, será desativado após ter transportado mais de 20 mil passageiros na linha experimental construída na Cidade Universitária, ligando os Centros de Tecnologia 1 e 2, um percurso de 200 metros. A falta de recursos, agravada pela pandemia, levou a essa decisão, comunicou a universidade

“O projeto não morreu, mas este protótipo experimental deu tudo o que podia dar. Foi construído de forma artesanal, compatível com a necessidade nessa primeira fase de teste em ambiente externo. Agora, precisamos de um protótipo industrial”, afirma o engenheiro Richard Stephan, responsável pelo projeto. “A propriedade intelectual está garantida por patentes. A grande dor está na dispersão da equipe”.

Em outubro de 2019, CartaCapital publicou uma alentada reportagem sobre a asfixia financeira imposta pelo governo de Jair Bolsonaro na área de ciência e tecnologia. Naquele ano, o valor disponível para investimentos representava cerca de um terço do gasto em 2013, segundo estimativas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O MagLev-Cobra era um dos exemplos destacados na matéria, devido à ameaça de interrupção do projeto por falta de recursos.

Stephan chegou a sacrificar as finanças pessoais em prol da ciência. Em 2014, quando ele apresentou à comunidade científica o protótipo do trem, não faltou apoio. O projeto futurista recebeu contribuições do BNDES, da Faperj, da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, e também de grandes empresas, como OAS, Weg, White Martins e Akzo Nobel. Depois, o cenário mudou.

“Tive um pedido negado pelo BNDES, os recursos da Faperj foram congelados, até por conta da gravíssima crise política e fiscal do Rio de Janeiro. No início de 2018, não tinha dinheiro nem para pagar a minha equipe, composta de um engenheiro, um técnico e uma secretária-executiva”, relatou o professor, que bancou o salário da equipe por cinco meses. “Não tenho mais condições de investir. Se colocar mais dinheiro do meu bolso, vou destruir meu casamento. Minha esposa ficou muito chateada. Agi calado, ela só descobriu depois.”

Compacto, leve e não poluente, o MagLev-Cobra flutua silenciosamente sobre os “trilhos”. Com ele, os brasileiros lideravam a corrida pelo desenvolvimento da inovadora tecnologia de levitação magnética por supercondutividade. “Somos os únicos no mundo a ter um protótipo desses funcionando fora do laboratório, levando até 30 passageiros por viagem”, orgulhava-se o criador.

Com um custo de implantação equivalente a um terço do valor gasto em um projeto de metrô convencional, o trem tem potencial para atingir 100 quilômetros por hora e ser uma alternativa de transporte em grandes centros urbanos. Não por acaso, a Southwest Jiaotong University, sediada em Chengdu, berço da engenharia ferroviária na China, manifestou interesse no projeto e firmou uma parceria acadêmica com a Coppe em 2017.

O projeto havia sido aprovado em um edital de financiamento à pesquisa da Agência Nacional de Energia Elétrica. Na proposta, estava prevista a construção de um novo veículo, que seria produzido pela empresa Aeromóvel, e um novo motor linear, que seria fabricado pela Equacional, seguindo as especificações de uma tese de doutorado defendida na instituição de ensino.

“O novo projeto tornaria o MagLev-Cobra em um Automated People Mover, veículo autônomo capaz de trafegar na nossa linha de 200 metros sem precisar de piloto. O projeto foi aprovado pela Aneel em setembro de 2019, mas a concessionária de energia EDF, parceira na proposta, recebeu orientação diretamente da matriz francesa para não assinar o contrato, exatamente no período de oficialização”, lamenta Stephan. “Foi como uma noiva que diz não no altar, sem se explicar direito”.

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