Cresce pressão internacional contra golpe

Especialistas lembram repúdio de integrantes da sociedade civil no exterior e ressaltam eventual dano que guinada nas relações exteriores pode causar ao país

por Rodolfo Wrolli

São Paulo – O filme do Brasil está cada vez mais queimado lá fora. Não são apenas os veículos de comunicação internacionais que andam denunciando a situação política que levou ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff e à nomeação de ministros corruptos. O repúdio também emana de diversos países e organismos internacionais.

Ontem (3), ao negar o golpe, um diplomata brasileiro foi vaiado durante conferência da Organização Internacionaldo Trabalho, organismo vinculado a Organização das Nações Unidas (ONU).

A presidenta da sessão, Cecilia Mulindeti-Kamanga, cortou a fala do diplomata, alegando que o representante do governo infringiu as regras da conferência ao tratar de assunto fora da pauta.

Esta foi só a mais recente manifestação de repúdio em instâncias internacionais. No final do mês de maio, 30 eurodeputados assinaram carta enviada à Alta Representante da União Europeia (UE) para Política Externa e Segurança, Federica Mogherini, reivindicando que não negocie com o presidente interino Michel Temer. O governo brasileiro lidera o acordo comercial entre o bloco e o Mercosul.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a mais importante comissão da ONU no subcontinente, divulgou em março nota com teor forte em que presta total apoio ao mandato de Dilma Rousseff e conclama a sociedade brasileira a respeitar o resultado das urnas, sob o risco de desestabilizar a democracia em todo o continente.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, igualmente defendeu o mandato da presidenta eleita e criticou as tentativas de tirá-la do cargo sem fundamento jurídico. Na sua avaliação, Dilma demonstra um claro compromisso com a transparência institucional e a defesa dos ganhos sociais alcançados pelo país. “É a realização de um processo de impeachment de uma presidente que não é acusada de nada, não responde por nenhum ato ilegal, sobretudo porque vemos que entre os que podem acionar o processo de impeachment existem congressistas acusados e culpados. É o mundo ao contrário”, afirmou.

A União de Nações Sul-americanas (Unasul) condenou seguidas vezes o processo de destituição da presidenta Dilma. O secretário-geral do organismo, Ernesto Samper, declarou que um julgamento político contra um presidente que não cometeu qualquer crime abre precedentes para que isso aconteça de forma indiscriminada em toda a região.

Países da América Latina foram os primeiros a se manifestar contra o golpe. Cuba, Nicarágua, Chile, Bolívia, Uruguai, El Salvador, Equador e Venezuela criticaram o processo de impeachment e expressaram apoio a Dilma. Os três últimos convocaram seus embaixadores de volta. Na linguagem diplomática, essa medida representa profundo descontentamento com o país onde se localiza a embaixada.

Sociedade civil

O coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Giorgio Romano, ressalta, no entanto, que nenhum país ou organismo internacional vai romper relações com o Brasil por causado do golpe. Para ele, muito mais importante que essas reações é a pressão da sociedade civil no exterior, como as 

verificadas no festival de cinema de Cannes, em maio, quando os atores brasileiros do filme Aquarius – que concorreu à Palma de Ouro – denunciaram ao mundo a situação política brasileira.

Ele também cita a cobertura internacional da imprensa, que “simplesmente parou de reproduzir o que a Globo e companhia noticiavam e mandou os correspondentes trabalharem”.

O protesto de intelectuais que levaram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a cancelar sua participação numa palestra sobre democracia na América Latina também foi lembrado por Romano.

Um grupo de integrantes da Associação de Estudos Latino-Americanos (Lasa), entre intelectuais brasileiros e estrangeiros, encaminhou à entidade petição defendendo ser inapropriado o tucano participar do painel organizado pela instituição no momento em que o PSDB é apontado como um dos colaboradores de um golpe no Brasil.

“Os relatos que temos é que o pessoal ligado o governo está extremamente incomodado com isso”, diz Romano. “O posicionamento da mídia e da sociedade civil internacional é muito crítico em relação ao processo [de destituição de Dilma Rousseff]. É evidente que um ministério formado apenas por homens brancos, muitos envolvidos em corrupção, gerou um desconforto. Tudo isso alimenta na Europa e nos Estados Unidos a ideia de instabilidade política.”

Guinada na política externa

Soma-se a isso a guinada que o governo interino vem implantando na política externa. O novo ministro das Relações Exteriores, José Serra (foto acima, à esquerda), já sinalizou a intenção de fechar postos diplomáticos abertos nos governos Lula (2003-2010) e Dilma Rousseff na África e no Caribe. Desde 2003 o Brasil vinha intensificando as relações entre países em desenvolvimento.

Em seu discurso de posse, Serra afirmou que a partir de agora as relações exteriores irão “atender à sociedade e não a um partido”. Entre as novas diretrizes, o tucano citou a prioridade das relações com os Estados Unidos e com Argentina, México, também comandados por governos neoliberais.

“O que está se tentando fazer num curto espaço de tempo é o que geralmente não se faz em política externa, que é tentar dar uma guinada muito rápida, por isso essa avalanche de críticas de organismos internacionais e países vizinhos”, afirma Moisés da Silva Marques, doutor em Relações Internacionais pela USP e coordenador do Centro Acadêmico 28 de agosto.

Moisés avalia que a nova diretriz proposta por Serra, de priorizar apenas o comércio exterior, pode caracterizar o abandono da visão estratégica que o Brasil vinha adotando de se posicionar de maneira mais assertiva em assuntos globais.

“Política externa não se faz com o fígado, se faz com estratégia. O que aparece claro é que o Serra, ao tentar anular o que vinha sendo feito nos últimos anos, tenta fazer disso uma alavanca para projetos pessoais maiores. E daqui a pouco podemos não ter mais nada das relações Sul-Sul, pois ele está priorizando só o comércio exterior e abandonando o caráter estratégico da política externa”, acrescenta Marques.

 

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