CCBB recebe ciclo de debates sobre o feminismo até domingo

A presença das mulheres na arte brasileira contemporânea é pulsante e real, mas isso está longe de significar a ausência do machismo nesse campo da produção artística. O fato de as mulheres terem uma representação importante não quer dizer que temáticas de gênero sejam tratadas naturalmente. Ainda há muita resistência quando o assunto esbarra em questões feministas e foi para refletir sobre a origem e o porquê dessa reticência em tratar do tema que a pesquisadora Roberta Barros organizou o ciclo Diálogos sobre o feminino, um conjunto de debates e performances em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) até domingo.

Durante quatro dias, pesquisadoras de várias áreas – incluindo artes visuais, literatura e ciências políticas – críticas de arte, artistas e jornalistas se encontram para debater os eixos temáticos idealizados por Roberta. A intenção é orientar as discussões para questões como o medo da associação com o feminismo, o tratamento dado às problemáticas de gênero, a maneira como a crítica se debruça sobre essa produção e o corpo como arma política no contexto contemporâneo das performances.

Roberta aponta que, mesmo havendo muitas mulheres na produção artística contemporânea brasileira, o tema gênero sempre sofre um abafamento. “Ao mesmo tempo que temos muitas mulheres artistas e pesquisadoras, tem muita resistência na arte em se falar em gênero”, explica. “Há muitas mulheres, mas as temáticas de gênero e machismo no campo cultural não encontram muita receptividade. São raros os críticos e historiadores que analisam essas questões. Geralmente, são debates mais formalistas, mais conceituais. É uma realidade um pouco perversa do nosso contexto.”

Para Heloisa Buarque de Hollanda, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e convidada para participar dos debates, o feminismo na arte brasileira passou por quatro momentos. Em um dos mais recentes, o comum era rejeitar completamente qualquer associação ao movimento. Nos anos 1980 e 1990, Heloisa lembra, muitas artistas tinham medo de ver seus trabalhos serem associados ao feminismo, embora muitos fossem violentamente e explicitamente voltados para questionamentos femininos. “Há obras de arte e a poesia bastante agressivas e fundamentalmente feministas, mas se você questiona com as artistas elas dizem ‘eu não sou feminista, sou artista’”, conta a pesquisadora. “É interessante essa recusa. E agora tem uma quarta onda com esse novo feminismo que está maravilhoso. Eles são mais pragmáticos, da linha nao ‘mexa comigo’. E adoram a palavra feminista. A palavra virou bandeira para adolescentes. A faixa etária caiu bastante, parecem as netas do feminismo dos anos 1960. As dos anos 1990 são as filhas e ainda não estão muito à vontade.”

No debate, Heloisa pretende fazer uma associação com a poesia e mostrar exemplos de artistas e, sobretudo, de coletivos para os quais as questões de gênero são urgentes. Ela divide a mesa com Luana Saturnino, pesquisadora da Unicamp e autora de Dramatização dos corpos: arte contemporânea e crítica feminista no Brasil e na Argentina. Elas vão partir do tema Olha quantas mulheres na arte brasileira para pensar a questão. No segundo eixo, a ideia é refletir sobre o peso da palavra feminista quando associada à arte. “Com esse mito de que não há machismo no campo brasileiro das artes, qualquer mulher que assumisse comprometimento com o feminismo ficava rotulada”, diz Roberta. “Sempre houve um receio muito grande na década de 1980, quando o mercado brasileiro estava próspero.” Para contrapor gerações, a pesquisadora convidou as artistas Ana Maria Tavares e Simone Michelin.

Programação Completa

HOJE

EIXO UM: Olha quantas mulheres na arte brasileira

18h30: Performance
À beira de, com Silvia Moura (Ceará)

19h30-21h30: Mesa-redonda
Com Heloísa Buarque de Hollanda e Luana Saturnino Tvardovskas
Amanhã

EIXO DOIS: Eu, feminista?

18h30: Performance
Passarelas, com Bete Esteves (RJ) e Roberta Barros

19h30 – 21h30: Mesa-redonda
Com Ana Maria Tavares e Simone Michelin

SÁBADO 27/8

EIXO TRÊS: Corpolítico: corpo, identidade, performance, política

16h: Performances
Não alimente os animais, com Jaqueline Vasconcellos (SP)
Fade out do olhar, com Laís Castro

17h – 19h: Mesa-redonda
Com Viviane Matesco e Helena Vieira

DOMINGO 28/8

EIXO 4: Black is beautiful – beleza-arte-corpo-militância

16h: Performances
Práticas rosas, com Sandra | (RJ)
Benignidade imerecida, com Coletivo Tres Pe – Marcela Campos (GO/DF)

17h – 19h: Mesa – redonda – Com Semayat Silva e Oliveira e Berenice Bento

Por CorreioWEB

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