Brasileiros não fazem planejamento financeiro e sofrem com inflação

É comum ouvir o brasileiro anunciar que está mais pobre a cada dia, que o salário não acompanha a inflação e que a aposentadoria perde o poder de compra com o passar dos anos. Nada disso é novidade. No entanto, esses desastres particulares acontecem porque o cidadão, em geral, não tem o hábito de fazer planejamento patrimonial de longo prazo. No máximo, analisa o capital em relação à inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 6,29%, em 2016. Equivocadamente, não considera o impacto dos aumentos reais nas despesas mensais. Não leva em conta o item que pesa mais em seu orçamento e que poderá causar rombos dramáticos nas receitas se tiver bruscas oscilações de preços. Ou seja, o brasileiro não sabe o que é “inflação pessoal”.

Duas pessoas com o mesmo salário podem ter, dependendo da fase da vida e da escolha individual (idade, gênero, tamanho da família, profissão, entre outros), de prestar atenção em despesas específicas que farão grande diferença no manejo do montante de dinheiro disponível. Fernando Marcondes, planejador pessoal do Grupo GGR, fez uma simulação para apontar o que está errado. No primeiro caso, o trabalhador, que recebe R$ 9 mil mensais, desembolsou R$ 2,5 mil (29%) com moradia e R$ 2 mil (24%), com ensino em 2015. Ou seja, esses dois gastos equivaliam a 53% de tudo que ganhava. No segundo caso, o salário é o mesmo e o percentual total, também. Mas os elementos, outros: este privilegiou moradia (29%) e lazer (24%).

“É sobre esses detalhes que eles precisam manter o foco. Se for viável, ambos devem se mudar para uma casa mais barata. Para um, que provavelmente tem filho na escola, o fundamental é pesquisar colégios, negociar a mensalidade escolar, pedir bolsa de estudo, o que achar melhor. O outro deverá olhar com atenção o gasto com diversão, e reduzir as saídas ou optar pela que lhe dá mais prazer”, assinalou Fernando Marcondes.
Mudanças

Se não fizeram isso, ressalta o especialista, tiveram um baque no ano seguinte. Em 2016, com inflação e juros em alta, e queda nos índices de emprego, os reajustes salariais de ambos foram semelhantes (6,29% do IPCA), mas as despesas mais importantes do primeiro cresceram 20,5% e do outro, 15,8%.

A poupança que os dois conseguiam fazer, de R$ 500 mensais, pois tinham gastos de R$ 8,5 mil, se evaporou, pois as despesas subiram mais do que o reajuste salarial de ambos. Enquanto a remuneração atingiu R$ 9,5 mil, as despesas do primeiro aumentaram para R$ 10,2 mil e a do segundo, para R$ 9,8 mil. O orçamento estourou, forçando-os a fazer escolhas. “Todos nós temos uma certeza: dificilmente as receitas vão subir no mesmo ritmo que as despesas. E sempre as taxas cobradas pelo sistema financeiro serão superiores aos rendimentos oferecidos aos clientes. Ou seja, temos que planejar os próximos 20 ou 40 anos, gastando menos agora e procurando aplicações que superem a alta do custo de vida”, assinalou Marcondes.

O problema é que o brasileiro, disse ele, tem a mania de antecipar seus desejos. Não vive dentro do seu orçamento. “A saída é simples: o gasto tem de ser racional, e não emocional. Se não posso ter, não compro. Se o dinheiro não dá, vou começar desde cedo a aprender a abrir mão de algumas coisas”, resumiu o planejador financeiro. E não é tão difícil, apontou. “Se alguém pretende, por exemplo, comprar um imóvel de R$ 1 milhão, financiado em 20 anos, por R$ 7 mil mensais, é melhor alugar um de R$ 5 mil por mês e reservar R$ 2 mil, no período. Nos mesmos 20 anos, terá o montante suficiente para o imóvel dos sonhos. Financiamento, normalmente, é muito caro. O brasileiro não tem a cultura da poupança”, enfatizou. A maioria diz que não sobra dinheiro para guardar.

O aposentado Itamar Reis da Silva, 62 anos, tem quatro filhos, de 24 a 30 anos. Vive com renda total de R$ 6,9 mil mensais (R$ 5,1 mil dele, mais R$ 1,8 mil da esposa). “Somente alimentação, taxas para manter a casa e vestuário consomem mais de 50%”, afirmou. Ele não acompanha a oscilação dos preços na ponta do lápis, mas percebe o buraco que vai se abrindo a cada ano. “Paramos de comprar roupa, reduzimos a ida a restaurantes e o gasto com material de beleza e higiene pessoal. Mesmo assim, não foi possível guardar dinheiro. Mas sempre ensinei meus filhos a poupar”, enfatizou.

Cobertor curto

O mesmo acontece com Marcia Dornelas, 37, analista de política industrial. Ela tem uma filha de 15 anos e renda de R$ 4 mil. “O jeito é pagar uma conta em um mês, adiar outras para o mês seguinte e ir pegando empréstimos daqui e dali. Os credores também não ajudam. No cartão de crédito, eu devia R$ 3 mil em agosto. Em janeiro, a fatura já estava em R$ 12 mil. Eu quis pagar R$ 5 mil, não aceitaram. Querem dividir em 60 parcelas, que, ao final, vai ultrapassar os R$ 16 mil”, reclamou Marcia. Ela disse que o dinheiro “some”. “Não sei exatamente dizer para onde vai. Os gastos são sazonais. Agora, por exemplo, são mais para uniforme e material escolar.”

Nilza Rosa é pensionista e vive com R$ 1,3 mil. Dos quatro filhos (de 13 a 29 anos), os dois mais velhos já têm o próprio salário. “Vendo cosméticos para complementar a renda, mas o ganho é flutuante. Vai de R$ 400 a R$ 2 mil por mês a mais”, contou. “A sensação que tenho é de que os preços sobem todos os dias”, analisou. Ela consegue fazer um plano de capitalização de aproximadamente R$ 100 por mês. Mas, ao final, resgata o dinheiro para gastar. “Agora, por exemplo, vou comprar um fogão. Tudo que tenho gasto com meus filhos. O meu mais velho vive brigando comigo. Ele diz que eu tenho que pensar mais em mim, no meu futuro”, confessou.

Originalmente por: Correio braziliense

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