Aluna de escola pública de Ceilândia tira nota máxima na redação do Enem

Gabriela de Souza Ribeiro acha que sempre foi uma aluna mediana. Em 2016, cursando o último ano do ensino médio, a jovem de 17 anos decidiu estudar para valer. O objetivo era o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Foram quatro horas de dedicação diária, após as aulas, com foco nas disciplinas em que se considerava mais fraca. Para a prova de redação, a preparação incluía a produção de mais de 80 textos durante o ano. O resultado surpreendeu a família, colegas e professoras. Gabriela tirou nota máxima, mil pontos, na prova da redação. O estudante Antônio Pedro Marques Nóbrega, também do DF, está no grupo seleto. O segredo para a performance brilhante também passa pela dedicação e pela disciplina. “Não é preciso ser artista para se fazer uma boa dissertação. É importante a busca de informações sobre os assuntos, porque esses elementos vão ajudar a produzir um bom texto”, relata.
Estudante do ensino público e moradora do Condomínio Pôr do Sol, no Setor P Sul, uma das regiões mais carentes do Distrito Federal, Gabriela conquistou o que apenas 77 alunos, entre os mais de 6 milhões que prestaram o exame em todo o país, conseguiram. No total, a garota fez 820 pontos no Enem e já comemora a vaga em Medicina na Universidade de Brasília (UnB).
Para se preparar para o exame, Gabriela assistiu a não número indecifrável de vídeo-aulas. Foi assim que se aprimorou em matérias dadas em sala de aula e tirou dúvidas sobre assuntos diversos. Ela usou e abusou, também, do youtube, com um objetivo único: conhecer melhor temas da atualidade. Desde a guerra da Síria à atual situação da África. Poucos assuntos ficaram sem um registro no papel. “Eu treinei muito. Sempre pegava muitas cópias para o rascunho de redação que a professora distribuía, para escrever sobre tudo. Assim não ficaria surpresa com o tema da redação e teria tempo para resolver as questões da prova”, explicou Gabriela.
No dia do exame, a estratégia de Gabriela para fazer a prova veio abaixo em dois minutos. Dado o sinal de início da prova, a moça foi direto ao caderno de redação e teve um lapso de memória ao ler o tema “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Nervosa, Gabriela fechou o caderno de redação, respirou profundamente, tentou se acalmar, se concentrou novamente e começou a resolver as provas de português e de matemática. Nesse meio tempo, passou a anotar todas as ideias sobre o tema da redação que iam passando pela sua cabeça. Quando finalizou as questões objetivas, já tinha uma lista enorme de informações interessantes para construir a redação, mas faltavam cerca de 20 minutos para terminar o tempo de prova. “Quando comecei a passar a limpo a redação, só tinham mais duas meninas na sala, mas Graças a Deus que deu tempo de terminar tudo”, disse.
O sucesso da jovem de Ceilândia trouxe muitas alegrias para ela, é claro, mas a família está radiante. Ao todo, faz são oito irmãos, que residem no Setor P Sul. A vitória coroou, ainda, um ano em que Gabriela passou por muitas dificuldades. Em 2016, a jovem sofreu com problemas nos rins e de dores fortes no abdômen, inclusive no dia da prova do Enem. Somente em dezembro ela conseguiu fazer a cirurgia: era apêndicite. Para dificultar ainda mais a situação, o Centro de Ensino Médio nº 10, onde Gabriela estudava, foi fechado para reforma, e os alunos foram alocados em uma escola localizada no Setor Industrial de Ceilândia. Para frequentar as aulas, os alunos pegavam o ônibus escolar na frente da antiga unidade de ensino e eram trazidos de volta no final da tarde. Sem dúivida, uma situação que resultou em evasão escolar e muito estresse para quem queria ir aà escola todos os dias. “Eu quis desistir de tudo. Se a gente perdesse esse transporte, tinha que pegar dois ônibus para chegar à escola”, desabafou Gabriela.

Inspiração

Gabriela mora em uma das regiões mais carentes do Distrito Federal. O conjunto habitacional Pôr do Sol, no Setor P Sul, em Ceilândia, começou como ocupação desordenada, na década de 90. Hoje, enfrenta problemas diversos, como violência, sujeira, falta de transporte público e de outros serviços essenciais. A jovem, que sonha em ser médica, acabou desanimando por causa da situação da família. “Sempre sonhei em fazer medicina, mas as pessoas me diziam que era muito difícil uma pessoa de escola pública conseguir uma vaga para esse curso em universidade federal. Ainda mais sendo pobre”, explicou.
Gabriela credita ao seriado norte-americano Grey’s Anatomy a vontade de cuidar da saúde dos outros. A produção fala de diversos dramas médico. “Eu já estava querendo ser policial, mas quando comecei a assistir a série, meu sonho voltou com força total”, confessou. “É verdade, a Gabi é apaixonada pela série e não perde nenhum episódio”, complementou Cleonice Pereira Souza, mãe de Gabriela.
Se a série despertou o desejo da futura médica, mal ela sabia que ela propria passaria a inpirar centenas de estudantes que têm uma condição social parecida com a dela. Agora, com o excelente resultado no Enem, Gabriela contabiliza as mensagens encorajadoras que tem recebido pelas redes sociais. “Já recebi quase 200 mensagens, pelo facebook e whatsapp, de gente me parabenizando. A maioria é de outros estudantes de escola pública, dizendo que sou uma inspiração para quem é carente, que não conseguiu pagar cursinhos e que quer cursar uma universidade federal”, finalizou.
Originalmente por: Correio braziliense
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